…E FAZER BOM USO DA SUA VIDA
Há um ano eu estava passando uma aflição danada em que muitas questões na vida foram colocadas na mesa. Sonhos, planos…
A vida do meu marido, meu companheiro de tantos anos, poderia ser interrompida assim, de uma hora para outra, por um problema agudo de saúde.
Neste momento é inevitável a gente dar um mergulho de cabeça na pieguice e pensar: o que vale a pena na vida de verdade? E resposta vem rapidinho: viver.
Este sempre foi um dilema conjugal, as vezes causava uns arranca rabos. De um lado era eu achando que respirar é pré-requisito, que é o mínimo para viver. Do outro ele defendendo que respirar era tudo, era o suficiente, que era só isso mesmo. Acordar, respirar e pronto, estava feito.
Não há como negar que durante esta experiência fomos agraciados com uma sequência de bençãos. Uma sequência de coincidências felizes começaram a acontecer e nos levaram a um final feliz. É lógico que tudo isso nos fez sentir especiais, abençoados, mesmo sem ter feito nada especial para merecer.

Qual o saldo disso? Ah, aí fica a grande lição. O meio termo das duas opiniões parece ser o ideal, como quase tudo na vida.
Viver o HOJE, sempre é essencial, e eu estou aprendendo a fazer isso. Acordar e dar valor por ter esta grande oportunidade, abrir a janela e ver o céu e dizer obrigado. E daí? Acabou? Continuo achando que não. Acho que tem que viver bem, com qualidade, com intensidade. Brigo comigo mesma, todos os dias, para desfocar das minhas frustrações e desviar meus sentimentos para o resto, que no fim é a maioria das coisas.
E ali estava eu, na linha fina do possível fim da minha história a dois (minha história de amor) e fazendo a inevitável retrospectiva do que tinha valido a pena. As questões que disputamos? Os bens que juntamos? Ter bens materiais é bom, sem dúvida. Não são muitos mas nos dão segurança. Ter uma casa própria nos dá segurança, por exemplo. Mas definitivamente não são coisas essenciais.
As questões discutidas nos fazem crescer, sem dúvida, mas a gente não precisava ter perdido tanto tempo nelas, menos teimosia sempre é melhor. Passamos por coisas lindas e outras difíceis. Nos apoiamos em momentos dolorosos, passamos por perdas e passar por isso também tem sua beleza na vida a dois.
Mas não posso negar, nas minhas lembranças ficariam um lugar especial, muito especial, para as coisas que curtimos juntos, a viagens que fizemos, as risadas que demos de nós mesmos.
Ganhei uma coisa bem boa. Tenho uma enorme consciência de que somos mortais, que não precisa existir necessariamente um problema de saúde para tudo terminar. E isso me faz viver, no melhor sentido da palavra.
Então, posso dizer com certeza, uma opinião muito particular. Não me arrependo das apertadas no orçamento para viajar. Das coisas mais dispensáveis que abri mão para…adivinha? Passear ou, adivinha de novo. Viajar!
Nestes quase 20 anos de casamento demoramos mais tempo para realizar algumas coisas mas se tudo tivesse terminado poderíamos ter dito: do nosso jeito, tivemos uma VIDA juntos.
Obrigada Deus, por ter o privilégio de um ano depois, poder dizer isso com tanta alegria. Muito obrigada mesmo.
