Archive for setembro, 2010

26/09/2010

52 :: PASSAR A NOITE EM UMA HOSPEDAGEM…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TÍPICA DO MARROCOS

Nice to meet you to, Marikà. Respondi à mocinha que nos recebeu no Riad Tizwa em Fes.
O que eu vi, no meio da luz envolvente que saía por trás dela, me fez esquecer toda a perrengue que foi chegar lá. Era um estreito corredor que nos levaria para um mundo paralelo.

Era tudo tão cheiroso, a iluminação era quente, o lugar bem decorado e silencioso. Enfim, o Marrocos dos sonhos, igualzinho ao que tinha visto em um livro de hospedagens marroquinas chiques.

Marikà, me oferece um chá de hortelã. Aceito, lógico.
Meu marido, no desespero de descansar, me manda um olhar fulminante quase dizendo: “Pelamordedeus mulé, depois de dois dias vagando, sem banho, você ainda aceita um chá com fru-frus? Bando e cama, agora!”
Gente, o que eu posso fazer? Àquela hora a moça tão solícita com o chá pronto, maior clima, o pátio iluminado, cheio de velinhas, cheiroso. Eu tinha que aceitar.
Pedi desculpas, pelo meu estado de higiene pessoal, para o aconchegante sofá e me sentei na beiradinha para tomar o chá pelando, naqueles copinhos fofos.

Precisamos ligar em casa para tranquilizar a família, feito. Conhecemos Samyr, um simpático ajudante da casa. “Do you speak english Samyr?” E ele responde com as duas mãos no peito, em sinal de reverência: “Yes!”
Bom, muito bom.

Nossas malas sumiram, mágica. E o que achamos que era uma porta para outra sala era na verdade nosso quarto, com uma grande porta de duas folhas que dava direto para o centro da casa, o pátio. Fiquei meio deslumbrada, admito. Nós dois ficamos.
Assim que a porta fechou a gente perdeu a compostura de tanto rir e dizer: “Que legal! Que legaaaaal.”

Era um enorme (e-nor-me) quarto decorando lindamente no estilo marroquino com toques de modernidade. Atrás da cama (fofa, com uma linda colcha acetinada verde musgo) tinha uma espécie de biombo onde as malas foram acomodadas.
Quartão. Tinha poltrona, mesinha…

…roupões pendurados, aqueles sapatos marroquinos estilo Aladin. Tudo super arrumado.

Tomamos o banho dos banhos (pra ser perfeito só faltava uma banheira). Ainda liguei meu computador – wi-fi bombando! – e adormeci com parte das luzes acesas (eram várias fontes de luz) só para o caso de acordar durante a noite e resolver admirar o teto – e fiz isso mesmo, loucura.

Juro, me senti a Jade da antiga (antiquíssima) novela. E dá-lhe “O Clone”.

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24/09/2010

51 :: CHEGAR EM FES…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TARDE DA NOITE (DE ÔNIBUS, SEM NINGUÉM PARA TE BUSCAR, ETC, ETC, ETC…)

Enfim, chegamos.
Foi sem querer. Chegar em Fes quase meia noite e sem nenhum apoio para o traslado não estava no programa. A gente pensava em um pouco de estrutura na nossa estreia no mundo islâmico. Mas 45 horas após o horário programado de chegada, perdemos um pouco o controle, o que fazer neste caso?

Bom, fizemos o que estava ao nosso alcance.

Depois de ligar para o riad [riad é um tipo de hospedagem marroquina, compare os preços de se hospedar num riad ou em um hotel] descobrimos que os donos não estavam lá para reorganizar nossa chegada – nunca estiveram em Fes mas sim em Londres, onde moravam e nunca comentaram nada.
Meu marido improvisou. Me colocou de castigo num cantinho, sentada em cima das malas e saiu com o endereço na mão a procura de um táxi. Eu fiquei lá quietinha – vestindo regata e uns jeans que estava caindo de tão largo, figurino um tanto deslocado para um país islâmico – e sem menor coragem de colocar um casaquinho em cima do meu corpo suado.
Fui examinada por todos os pares de olhos que passaram, sensação estranha.

Não sei quanto tempo passou, mas demorou. Eu comecei a me preocupar com o destino do meu marido.
Imaginei bandidos sequestradores e nele esquartejado em algum canto sujo e escuro. A coisa mais leve que pensei foi num roubo seguido de surra. Que agonia.

A RUA DO NOSSO RIAD E SUA PORTA

Depois de um tempão ele aparece super confiante, acompanhado de um moço.
Sem dar muitas explicações diz: “Pronto, resolvi tudo. Este cara me emprestou uma moeda, fiz uma ligação de uma cabine, peguei algumas indicações, ele tem um táxi, vai nos levar lá.”
Certo, não tive forças para resistir, não tinha uma opção melhor mesmo. Sem contar que eles já estavam melhores amigos, quase separados ao nascer. E lá fomos nós pela noite de Fes, pagando 150 dirhams, cerca de € 15 (que depois soubemos ser um absurdo de caro) para um desconhecido, aparentemente suspeito, nos levar sabe Deus para onde.

Saímos da cidade nova e entramos na medina que por acaso era o lugar que eu fiz questão de ficar hospedada, para sentir mais o clima do lugar blá, blá, blá.
Para a gente se perder foi coisa de cinco minutos, eu passaria a eternidade vagando por aquelas nove mil e tantas ruas (como eles gostam de enfatizar repetidamente) se ele me largasse lá sem um mapa – e com um mapa também. Quando a coisa estava feia e eu estava começando a pensar que tudo aquilo era um castigo por criticar turismo na Favela da Rocinha o carinha para o carro, solta um “wait, please” e larga a gente sozinho.
Foi aí que comecei a entregar minha alma para Deus e pedir perdão por todos os pecados, maledicências, pelo cinismo, pelas vezes em que peguei o pedaço de bolo maior deixando menor para meu marido que ama doces.

UM CLOSE

Mas olha que coisa fofa o rapazinho marroquino de inglês britânico. Ele tinha descido pra achar uma lan house (engraçado uma lan house ali) para acertar direito a localização do riad. Sensacional, muito moderno isso.
E depois ficamos sabendo que, de verdade, não corremos risco nenhum ali. Não tem nada a ver com o perigo do Brasil, a coisa é bem pacífica.

Depois de umas erradas aqui e ali – e de inclusive bater numas duas portas erradas – ele bateu na porta que eu torcia para ser a minha desde a hora que entramos na rua.
A porta se abre, aparece uma moça baixinha e diz, ao mesmo tempo em que um cheiro gostoso e uma luz quente vazavam do ambiente aconchegante logo atrás dela: “Good night, my name is…Marikà, nice to meet you.”

ARE BABA! NÃO, ISSO DE OUTRA NOVELA, HEHEHE…

Enfim, o Marrocos versão “O Clone” (sim, a novela da Globo) começava ali.

22/09/2010

50 :: IR DE SEVILHA A FES…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…DE ÔNIBUS

Assim, a olho nu, parece uma escolha esquisita. E é, mas não tanto. O fator aventura, que se for com segurança, é sempre bem vindo.
Numa procura pela internet meu marido descobriu a Eurolines, uma companhia holandesa de viagens de longa distância. A passagem foi comprada pela internet de forma muito eficiente e bom atendimento. O caminho mais ortodoxo é fazer de avião e tem muita passagem barata para Fés.

OLHA O SITE, QUE BONITINHO…

10 de outubro, o plano
Nosso ônibus sairia as 4:30hs, mas mandaram chegar uma hora e meia antes.
A poucas horas atrás tivemos nosso jantar de despedida da Espanha, que afinal, foi uma viagem muito bonita. Relembramos nosso roteiro que nos fez entrar gradativamente no mundo árabe: Barcelona, pela arte catalã. Valência e Almeria, pra aproveitar o caminho. Andaluzia para entrar no clima do que seria o grande destino das nossas férias: Marrocos, nosso mergulho final no mundo das Arábias.

Estamos certos da nossa decisão de fazer Sevilha-Fes de ônibus. Tudo pra não ter que ir até Madri pegar um avião, nem passar por deslocamentos, aeroportos, malas, check-in…afinal, estamos a cinco minutos da estação em Sevilha e nosso riad em Fes também é perto da estação e eles vão nos buscar de carro.
E olha que maravilha: ainda podemos aproveitar este tempo para dormir um pouco, porque na Espanha a gente pirou e chegou no hotel quase todos os dias de madrugada. Tudo se encaixa, a única coisa esquisita eram as 16 horas de viagem, nas nossas contas dava 10 horas no total, mas tudo bem, vamos nessa. Fomos para a estação de ônibus, em Sevilha.

10 de outubro – 3 da manhã
Perguntamos para uns taxistas onde era a entrada da estação. “Está cerrada, solamente as 5 e media.”
Como assim? Nosso ônibus sai as 4 e meia? E eles disseram “Eurolines? Marruecos? Ele passa por aqui, na rua, eles não entram na estação.”
Ficamos no lugar indicado, já desconfiados de tudo e com uns nóias bem pertinho, olhando para a gente. Em meia hora (as 3:30!) encosta um ônibus da Eurolines.
A porta se abre e aí começou a bizarrice, o “capitan” (a gente sempre coloca uns apelidinhos bobos nas coisas e pessoas) do ônibus deu uma olhadinha de leve na passagem, e ficou perguntando “Fès? Marrocos?”. Comentou muito por cima que lembrava que pegaria dois brasileiros ali e tal, muito vago. Não pediu passagem, dentificação, nada. Entramos sem saber se estávamos no ônibus correto, afinal, este estava adiantado em uma hora. E os outros passageiros que embarcariam na mesma parada? Não tinha mais ninguém? Era só a gente mesmo e os marroquinos (só marroquinos) que já estavam no ônibus. Até que ônibus era confortável, nada demais. Mas não era mais Espanha, já era Marrocos. E os comandantes da coisa não falavam nada que não fosse árabe.

10 de outubro – 5:45
Chegamos em Algeciras, de onde sai o ferryboat para Tanger.

QUEM ME DERA…

Informação zero. O busão parou e lá ficou. Seis e meia, nada. Sete horas, um vento forte soprava. Abriu a cafeteria, tomamos café e informação zero. O vento só aumentando, mais ônibus chegando. Oito, nove, dez horas…

QUEM DIRIA QUE HORAS ANTES O DIA ESTAVA LINDO?

10 de outubro – 10:30
O “capitan” manda (manda mesmo!) todo mundo descer do ônibus e ir para o embarque – em árabe! Foi aí que conhecemos Fatima. Uma senhora uns 60, 70 anos, usando lenço islâmico, que ia sempre visitar os filhos na Espanha, sozinha. Ela nos disse em um esforçado inglês o que ela achava que estava acontecendo. Uma ressaca no oceano, e uma ventania danada impossibilitava a viagem. Enquanto isso aconteceram muitas investidas e ameaças de embarques e em todas elas víamos nossos passaportes sumindo da nossa vista na mão do “capitan”. Medo. E vai discutir com eles, vai. O cara começava a falar em árabe sem parar, surtado. Nem devovler o passaporte na minha mão ele não fazia, só na mão do meu marido (!). Desistimos de resistir.

JURO, EU TAMBÉM DEITEI NESTE CHÃO E DORMI DE SONHAR

10 de outubro – quase meio-dia
O vento virou tormenta das feias e o porto fechou para qualquer embarcação.
A estação parecia Cumbica no auge da crise aérea, um grande albergue. E começamos a conhecer outras pessoas, Mohammed, que mora em Lyon na França que pegou este ônibus em Paris. Assiah, uma moça que vive na Espanha e esta indo visitar a família. Os dois nos ajudaram, Assiah fala espanhol, um pouco de inglês e a gente se virava com isso.

MEUS AMIGOS MOHAMED E FATIMA

Eu queria ir para um hotel mas nossa bagagem estava no fundo do maleiro do ônibus (pois mais pessoas embarcaram com muita bagagem) e não dava pra confiar que nosso amigos comandantes iriam nos esperar. Nestas horas a gente não pensa direito, a solução era perder a grana e depois pegar a barca e se deslocar de Tanger para Fes, onde tínhamos reserva. Mas como estavam sempre dizendo que já ia liberar a gente vai ficando e ficando. Acabamos dormindo no ônibus, do jeito que deu, todos sem banho, e com gente fazendo lanches bizarros com todos os vidros fechados. O ônibus balançava de lado com as rajadas de vento.
E assim ficou até as 9 da manhã de 11 de outubro.

FILA? NUNCA!

11 de outubro – quase meio dia
Recebemos nossos bilhetes e ordem para embarcar. Fila? O que é isso? Um grande bolo de gente para fazer controle de passaporte. Parece que o ferryboat sairia as 13hs.
Meio dia e meia, o bolo cresce e eles desistem de fazer o controle.

ESTA HORA ME DEU MEDO, MUTO MEDO!

Todos entram, só recolhem os bilhetes. Entramos na balsa, parecida demais com a que faz a travessia Salvador-Itaparica, só que dez vezes maior. Quando subimos a escada, surpresa! Um ambiente bem iluminado, com poltronas estofadas, piso de madeira, cafeteria, lojas de grife, restaurante. Algo assim como o lobby de um bom hotel.

LUXO, LUXO. QUE SURPRESA

11 de outubro – 13:30

Saímos de Algeciras e começaram as quase três horas de travessia. Assiah me deu um Dramin, graças a Deus. O mar estava feio e muita gente vomitou.
O controle de entrada da polícia marroquina foi na balsa, meu passaporte foi carimbado sem minha presença, só pelo fato de meu marido ter assegurado que eu estava lá mesmo. Duas espanholas que estavam com a gente não conseguiram fazer o mesmo pelo filho de um delas, o garoto teve que ir até as autoridades todo molinho de tão enjoado.

O MAR MAIS CALMO  E MINHA PRIMEIRA VISÃO DO MARROCOS, TANGER
ENJÔO?

11 de outubro – 16:00

Chegamos em Tanger – cidade feia, feia – um bolo só de gente, marroquino odeia mesmo fila. A entrada no país foi checada assim, por amostragem no meio do bolo de gente.

CRISTO! QUE MEDO ESTA HORA, QUE MEEEDDDOOOO!

Bom, acertar os relógios, duas horas a menos. Essas duas horas e mais um pouquinho perdemos na transferência de bagagem entre os três ônibus que iam para Fes, Rabat e Marrakesh. Um bolo enorme, sacoleiras fazendo o maior escarcel pelas suas coisas que não cabiam nos três ônibus que foram unificados.
Barraco total, mas enfim saímos. No ônibus apenas marroquinos e um casal de californianos. Agora falta pouco, umas quatro horas de estrada. Paramos no meio do caminho para comer. Um boteco de beira de estrada, com carneiros pendurados, cheios de moscas. A comida cheirava bem demais mas meu estômago já estava pra lá de embolado pelas muitas horas no ônibus e a comida ruim. Só comemos pão e refri. E eu ainda arrumei encrenca com o cara por um troco errado. Ridículo, a grana correspondia a uns 10 centavos de real, ou menos.

EM SENTIDO HORÁRIO: AS DOCAS DE TANGER, MINHAS PRIMEIRAS PLACAS ANALFABETAS, O BARRACO DAS MALAS QUE NÃO CABIAM NO ÔNIBUS E VERSÃO DE MIRINDA MARROQUINA QUE FEZ MEU MARIDO VOLTAR A SUA INFÂNCIA, EM VIAGENS PELO NORDESTE

Mas a viagem foi tranquila, um homem nos trocou dinheiro com um câmbio bom, afinal, em Tanger não nos deixaram fazer isso. O mesmo homem nos ofereceu o celular para ligar para o riad (pousada em árabe). Muito simpático, mas não conseguimos ligar do celular dele.

E MINHA FOTO PREFERIDA DESTE POST, OS BICHINHOS PENDURADOS

11 de outubro – 23:00. Horário local.
Chegamos em Fes. Ali descobrimos que o telefone do riad que estávamos falando desde o começo do rolo não era do Marrocos, mas sim de Londres, onde os donos moravam, por isso a gente não conseguia fazer do celular do rapaz, ainda bem coitado, sairia caro pra ele.
Não tinha ninguém nos esperando na estação por causa do atraso, nem nossos telefonemas foram suficientes para corrigir este problema. Era tudo que eu não queria, chegar em uma cidade complicada com Fes tão tarde da noite e sem apoio.
Mas a história se resolveu e finalmente, quase 45 horas depois do esperado chegamos ao Riad Tizwa.

Resumo da ópera
Umas 10 horas foram de viagem mesmo. 24 horas foram perdidas por problemas meteorológicos. Umas cinco em consequência do mesmo problema, pelo acumulo de gente e tal. E as outras horas? O rolo normal da vida marroquina e a falta de talento pra filas. Afinal, o terminal de embarque do ferry em Algeciras já não é mais Espanha. É puro Marrocos e sua cultura.
Valeu a pena? Não. E se fosse sem a tormenta? Talvez, pela aventura. Acho que não corremos risco nenhum.

Tem um cara que fala um pouco sobre a Eurolines: João Leitão, um portuga muito viajado e descolado.

18/09/2010

49 :: PEDIR PARA O GARÇOM…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…ESCOLHER O QUE VOCÊ VAI COMER

A cena: duas pessoas andando sem rumo em Eixample, Barcelona. O lugar escolhido para jantar: Casa Alfonso, restaurante tradicional, charmoso.

CASA ALFONSO, ESCOLHIDA AO ACASO, UM ACERTO

Figurantes: amigos de trabalho no happy hour e velhinhas levando marmitex para casa.

PORQUE A GENTE SE ACHA ESPECIAL QUANDO JANTA COM “GENTE DO LUGAR”?

Personagens principais: eu, meu marido e Isabel.

ISABEL, RAPIDINHA PELO SALÃO

Ela chegou séria, oferecendo o cardápio. Nós pegamos nosso livrinho de catalão para viajantes e arriscamos um “o que tem para comer?”. Ela ficou meio sem entender e explicamos melhor que queríamos comer algo especial, algo catalão, algumas coisinhas com a cara de Barcelona sem ser as tapas, e confiávamos na sua escolha as cegas.

Acho que nosso interesse foi a senha de entrada no coraçãozinho de Isabel. E a mulher com cara de braba foi se tornando simpática e escolheu nosso jantar, as bebidas, a sobremesa, tudo.

SALADA, UMA COISA QUE CHAMAMOS AMAVELMENTE DE “LINGUIÇON”, PÃO DE TOMATES, ASSADOS DE LEGUMES, CREMA CATALANA. ENFIM, UM BANQUETE CATALÃO

Comemos até esquecer o infortúnio que é ser roubado em uma viagem. Eu, a esperta das viajantes, fui vítima de um carteirista comum, crime manjado. Mas o fato foi que este episódio não afetou nossa percepção da cidade, nem das pessoas. E por mais que tenhamos ouvido falar da grosseria catalã não tivemos mais além de gentilezas. Sorte? Talvez.

XXX
O PRIMEIRO CAFÉ IRLANDÊS A GENTE NUNCA ESQUECE

Não costumamos beber (embora posts deste blog procurem insistentemente provar o contrário) mas neste dia bebemos Clara (cerveja com refrigerante de limão), sangria e de cortesia da nossa anfitriã um café irlandês, bebido de um gole só depois de pedirmos a conta com um el compte si us plau (a-do-ro catalão).

ÁLCOOL, SÓ AS VEZES, EM VIAGENS

Na despedida meu marido – a estas alturas, uma pessoa desinibida e falando sua própria versão de catalão fluente – agradeceu lascando um beijo na mão de Isabel – que ficou surpresa mas acabou rindo. Depois disso só me restou também abraçá-la e beijá-la nas bochechas, como se fosse uma velha conhecida (quem disse que eu tenho moral para falar mal de gente que “causa” em ambientes públicos?).

No auge da bebedeira bem que meu marido avisou, meio de brincadeira, para a Isabel onde era o nosso hotel (e do quarto!) para o caso de ter que chamar um táxi para dois incapazes.
Foi duro, muito duro, vencer as dez – enooooormes, nunca vi tão grandes – quadras que resolvemos fazer a pé, sabe Deus o por que desta decisão.

Experiência ótima, repetiria fácil. Moltes gràcies, Isabel.

Sabe? As vezes, quando eu me imaginava andando pelas ruas de Barcelona achava tudo meio caro, meio impossível. É questão de se programar, pesquisar melhores tarifas de hotéis e hospedagens, não fazer questão de muitos luxos e se contentar com conforto e as vezes mimos.

07/09/2010

48 :: SENTIR VERGONHA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…PELA VERGONHA ALHEIA

Ser brasileiro tem seu charme no exterior e, mesmo sem querer, as vezes abre portas.
A etiqueta é mais ou menos assim: pode receber gentileza por ser brasileiro. É simpático da parte de quem a faz mas tentar desenterrar vantagens na marra é constrangedor, ainda mais quando não se obtém sucesso. Fica mal, sempre.

Foi em um jantar em Sevilha que vimos um exemplo disso.
A cena não poderia ser mais perfeita para uma noite de outono na Andaluzia.
O lugar era a Cerveceria Giralda – pra variar, escolhida ao acaso. Nossa mesa tinha vista para a rua e para as laranjeiras carregadas. A temperatura estava lá pelos 23 graus com um vento morno avisando que traria chuva pela manhã. Música espanhola ao fundo e nós dois com um cardápio de tapas nas mãos. Nada mal.

ESTAS LARANJEIRAS CARREGADAS ME ENCANTAM!

Pedimos codorna e mais umas porções de tapas, nem me lembro mais quais eram.

EXISTEM DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE NÃO FOTOGRAFAM COMIDA E AS QUE FOTOGRAFAM. NO DETALHE: CAMARÕES COM QUEIJO, CODORNA E UMA SOBREMESA VERDADEIRAMENTE GOSTOSA, COM BASE DE CHOCOLATE E AMÊNDOAS. É O MÁXIMO QUE POSSO LEMBRAR A ESTAS ALTURAS.

É que nessa refeição o que marcou foi a sobremesa, o popular Tocino del cielo, um típico doce espanhol – que não tem nada a ver com o do mesmo nome, português – que injustamente confundi com pudim de padaria, que eu adoro, mas não queria comer uma versão espanhola dele e sim experimentar algo diferente. Por este pensamento quase perdi a chance de comer o doce dos doces, basicamente um pudim de ovos, uma coisa de louco, cremosa, perfeita, doce, leve e…e…feliz.

PARECE UM SIMPLES PUDIM, MAS NÃO É

Estava eu lá, lambendo os beiços com minha sobremesa e chega uma turma barulhenta de brasileiros. Veja bem, uma turma barulhenta num bar espanhol não é para qualquer um. Eram cariocas, pelo sotaque – morram de vergonha cariocas e nem é pelo barulho.
Achamos super divertido aquela turma animada, sem vergonha de rir alto e contar piadas mais alto ainda.
Daí começamos a ouvir o papo, mesmo porque não era opcional. Eles estavam há 4 dias na Espanha, vinham comendo McDonald’s este tempo sabe Deus porque e se perguntavam o que era tapas mesmo. Achei meio esquisito mas, nunca se sabe. Eles poderiam estar em algum retiro espiritual onde as pessoas não podiam falar, nem ouvir, nem sair na rua na Espanha. Vai saber.
Um deles disse: “Tapas?
E outro responde: “Tapas é porrrrção. É a mesma coisa que no Brasil, mas aqui chama tapa.”
[Certo. O Aurélio explica mais ou menos isso: s.f.pl. (pal. esp.) Culinária. Na cozinha espanhola, conjunto de pequenas entradas variadas, servidas como aperitivo. Ou se quiser uma explicacão mais detalhada a Timeout faz isso direitinho.
Outro retruca: “Ahhh, eu já comi isso um dia desses mas achei que vem pouco, a gente fica com fome. Por isso estava investindo no McDonald’s, sustenta mais.”

Gosto não se discute, discute? Não.
Depois de contar piadas, rir, pensar em ir embora eles decidem que vão pedir os tais tapas. Chamam o garçom, fazem seu pedido que é respondido com aquela objetividade espanhola tão característica: “No hay tapas, la cocina ha cerrado“.
Ã? Até parei de comer para ver no que ia dar.
“Cerrado? O que és cerrado?”
“É fechada, ele está dizendo que a cozinha está fechada.”
“Ô moço, como é teu nome?”
Silêncio.
“Acho que ele só entende em espanhol.”
“Co-mo-és-túúúúúú-nonnnnnn-bre?”
E o garçom responde, cheio de marra: “Jorge.” (pensa numa pronúncia bem espanhola: ror-re).
“Ror-re, ror-re???”
“Ah, eu sei. Ror-re é Jorrrrge em português!”
E a mesa toda diz em coro: “Ah…Jorrrrrrge”
“Ô Jorrrrge, quebra essa mi amico, uns tapitas, umas cerbezas, para nós amigos brasilianos.”
Uma farofa só – e eu posso falar, eu também não falo espanhol.
E o Jorge lá, implacável.
Tenemos cerveza, pero la comida…la cocina ha cerrado.”
E o povo insistia.
“Jorrrrge, somos brasilianos, biemos de brazi apenas para cumer tu tapas.”
E falavam entre eles, como se Jorge ali não estivivesse:
“Tem sim, ele quer ir embora, é tarde. Mas aperta ele que sai.”

Ai que vergonha.
E não teve jeito, o Jorge falou está falado, e foi quase isso que ele quis dizer, não que não fosse verdade: “Acabou a p**** da comida. Bebam cervejas, se quiserem.”

JORGE, MAIS MARRENTO QUE O MAIS MARRENTO DOS CARIOCAS (NADA COBTRA CARIOCAS, ADORO)

Pedimos a conta em portunhol muitíssimo esforçado em fazer bonito e fomos embora ao som dos impropérios da turma de amigos aguardando suas cervejas.
Bem que eu queria ver no que deu mas um ônibus (sim, um ônibus) as 4 da manhã, nos esperava para atravessar o estreito de Gibraltar com destino ao Marrocos.

Cervecería Giralda
c/ Mateos Gago 3
Tel. 954 22 82 50
Aberta todos os dias

01/09/2010

47 :: DEIXAR O SOM DO FLAMENCO…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TE CONTAGIAR, TE FAZER CHORAR DE ALEGRIA E TRISTEZA

É a música da dor, do amor, das raízes e – na minha humilde opinião – da sensualidade. É também onde cada gotinha do meu suposto sangue espanhol parece tomar conta do meu corpo e tenta a todo custo fazê-lo sair sapateando e batendo palmas ao som dos violões. Ui, acordei!

Meu primeiro contato com o flamenco profissa foi em um show da Eva Yerbabuena. Flamenco moderno, de gente que já foi além. Foi inevitável, neste dia nasceu dentro de mim a viagem para a Espanha.

Meu primeiro flamenco em solo espanhol foi em Sevilha e a coisa foi assim.

Primeira experiência: o lugar é algo no estilo barracão de escola de samba mas menor (não que eu já tenha ido em uma, mas imagino assim). Lugar com fachada comum, sem placa. Não paga para entrar e consome se quiser. Simples assim.

O show começa tarde, depois das 11. O lugar lota de espanhóis falando alto, fumando e tomando cerveja.
Eu já estava com sono quando aparece um senhor, faz um hãn-hãn e avisa que cigarro e voz não combinam, que o show vai começar e que todos se prepararem para o momento – só falta fazer uma oração para começar.

Todos obedecem apagando seus cigarros e fazendo silêncio. Daí, no pequeno tablado de madeira, sobem uma magrela com roupa de dança flamenca, um cara com pinta de bancário e o tal senhor do hãn-hãn versus cigarro. E daí, minha gente, começa o show.

Ai que coisa linda, que sentimento. Por pura mágica a mulher feia virou uma linda dançarina, o bancário não parecia uma pessoa nada comum tocando lindamente o violão e o tio do hãn-hãn sabia fazer muito mais que hãn-hãn, ele cantava com a alma, cantava um lamento que só poderia sair do fundo do coração, e batia palmas.

Não vi a hora passar.

O cruel é que a nossa micro-Nikon-recém-adquirada-na El Corte Inglês deu pau e não teve som. Morri de ódio, estava quase me recuperando disso mas escrevendo agora lembrei e morri de raiva de novo. Humpf. Então se alguém quiser ver vai ter que fazer o sacrifício de ir no La Carboneria (não sem se informar antes se vai abrir naquele dia) ou ver um videozinho no youtube, com o mesmo cantor e instrumentista daquela noite. Sensacional.
Ah, tem mais este videozinho, sente o clima boteco. É a mesma dançarina que vimos.

Segunda experiência: showzinho para turista. Escolhemos este show no olho, na entre entre as dezenas que recebemos na rua. E sabe? Não foi ruim, nem um pouco chato nem nada de negativo.
Era um teatro pequeno, com aquela iluminação de casa da luz vermelha e jogos de canhões de luzes coloridas no palco, cadeiras vestidas, mesas, garçons e muitos velhinhos ingleses na plateia – muitos mesmo, tipo excursão.


O grupo de artistas era maior, a dançarina principal cheinha, dançarinos masculinos (ou quase isso) que me deixaram tonta tentando acompanhar o movimento das pernas no sapateado e mãos batendo no peito.

E a cantora era mulher, voz lindíssima.

Show! Literalmente.

Não, não tenho filminho com som deste também, a gente ainda não tinha percebido o pepino! Humpf duas vezes.
Olha, a Casa Carmen Arte Flamenco não decepcionou e duvido que alguma outra tivesse sido ruim para o meu ponto de vista leigo.

Adorei as duas experiências mas se tivesse que repetir apenas uma ficaria com a versão roots do La Carboneria.