48 :: SENTIR VERGONHA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…PELA VERGONHA ALHEIA

Ser brasileiro tem seu charme no exterior e, mesmo sem querer, as vezes abre portas.
A etiqueta é mais ou menos assim: pode receber gentileza por ser brasileiro. É simpático da parte de quem a faz mas tentar desenterrar vantagens na marra é constrangedor, ainda mais quando não se obtém sucesso. Fica mal, sempre.

Foi em um jantar em Sevilha que vimos um exemplo disso.
A cena não poderia ser mais perfeita para uma noite de outono na Andaluzia.
O lugar era a Cerveceria Giralda – pra variar, escolhida ao acaso. Nossa mesa tinha vista para a rua e para as laranjeiras carregadas. A temperatura estava lá pelos 23 graus com um vento morno avisando que traria chuva pela manhã. Música espanhola ao fundo e nós dois com um cardápio de tapas nas mãos. Nada mal.

ESTAS LARANJEIRAS CARREGADAS ME ENCANTAM!

Pedimos codorna e mais umas porções de tapas, nem me lembro mais quais eram.

EXISTEM DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE NÃO FOTOGRAFAM COMIDA E AS QUE FOTOGRAFAM. NO DETALHE: CAMARÕES COM QUEIJO, CODORNA E UMA SOBREMESA VERDADEIRAMENTE GOSTOSA, COM BASE DE CHOCOLATE E AMÊNDOAS. É O MÁXIMO QUE POSSO LEMBRAR A ESTAS ALTURAS.

É que nessa refeição o que marcou foi a sobremesa, o popular Tocino del cielo, um típico doce espanhol – que não tem nada a ver com o do mesmo nome, português – que injustamente confundi com pudim de padaria, que eu adoro, mas não queria comer uma versão espanhola dele e sim experimentar algo diferente. Por este pensamento quase perdi a chance de comer o doce dos doces, basicamente um pudim de ovos, uma coisa de louco, cremosa, perfeita, doce, leve e…e…feliz.

PARECE UM SIMPLES PUDIM, MAS NÃO É

Estava eu lá, lambendo os beiços com minha sobremesa e chega uma turma barulhenta de brasileiros. Veja bem, uma turma barulhenta num bar espanhol não é para qualquer um. Eram cariocas, pelo sotaque – morram de vergonha cariocas e nem é pelo barulho.
Achamos super divertido aquela turma animada, sem vergonha de rir alto e contar piadas mais alto ainda.
Daí começamos a ouvir o papo, mesmo porque não era opcional. Eles estavam há 4 dias na Espanha, vinham comendo McDonald’s este tempo sabe Deus porque e se perguntavam o que era tapas mesmo. Achei meio esquisito mas, nunca se sabe. Eles poderiam estar em algum retiro espiritual onde as pessoas não podiam falar, nem ouvir, nem sair na rua na Espanha. Vai saber.
Um deles disse: “Tapas?
E outro responde: “Tapas é porrrrção. É a mesma coisa que no Brasil, mas aqui chama tapa.”
[Certo. O Aurélio explica mais ou menos isso: s.f.pl. (pal. esp.) Culinária. Na cozinha espanhola, conjunto de pequenas entradas variadas, servidas como aperitivo. Ou se quiser uma explicacão mais detalhada a Timeout faz isso direitinho.
Outro retruca: “Ahhh, eu já comi isso um dia desses mas achei que vem pouco, a gente fica com fome. Por isso estava investindo no McDonald’s, sustenta mais.”

Gosto não se discute, discute? Não.
Depois de contar piadas, rir, pensar em ir embora eles decidem que vão pedir os tais tapas. Chamam o garçom, fazem seu pedido que é respondido com aquela objetividade espanhola tão característica: “No hay tapas, la cocina ha cerrado“.
Ã? Até parei de comer para ver no que ia dar.
“Cerrado? O que és cerrado?”
“É fechada, ele está dizendo que a cozinha está fechada.”
“Ô moço, como é teu nome?”
Silêncio.
“Acho que ele só entende em espanhol.”
“Co-mo-és-túúúúúú-nonnnnnn-bre?”
E o garçom responde, cheio de marra: “Jorge.” (pensa numa pronúncia bem espanhola: ror-re).
“Ror-re, ror-re???”
“Ah, eu sei. Ror-re é Jorrrrge em português!”
E a mesa toda diz em coro: “Ah…Jorrrrrrge”
“Ô Jorrrrge, quebra essa mi amico, uns tapitas, umas cerbezas, para nós amigos brasilianos.”
Uma farofa só – e eu posso falar, eu também não falo espanhol.
E o Jorge lá, implacável.
Tenemos cerveza, pero la comida…la cocina ha cerrado.”
E o povo insistia.
“Jorrrrge, somos brasilianos, biemos de brazi apenas para cumer tu tapas.”
E falavam entre eles, como se Jorge ali não estivivesse:
“Tem sim, ele quer ir embora, é tarde. Mas aperta ele que sai.”

Ai que vergonha.
E não teve jeito, o Jorge falou está falado, e foi quase isso que ele quis dizer, não que não fosse verdade: “Acabou a p**** da comida. Bebam cervejas, se quiserem.”

JORGE, MAIS MARRENTO QUE O MAIS MARRENTO DOS CARIOCAS (NADA COBTRA CARIOCAS, ADORO)

Pedimos a conta em portunhol muitíssimo esforçado em fazer bonito e fomos embora ao som dos impropérios da turma de amigos aguardando suas cervejas.
Bem que eu queria ver no que deu mas um ônibus (sim, um ônibus) as 4 da manhã, nos esperava para atravessar o estreito de Gibraltar com destino ao Marrocos.

Cervecería Giralda
c/ Mateos Gago 3
Tel. 954 22 82 50
Aberta todos os dias

4 Responses to “48 :: SENTIR VERGONHA…”

  1. Francamente. Eu já não suporto essa turma barulhanta nem aqui no Brasil. Se algum dia eu for com minha família à Europa, vou te consultar para saber os lugares onde brasileiros barulhentos não comparecem. E mais, sair do Brasil, visitar um país estrangeiro para comer no Mc? É demais da conta. Sem falar que até hoje não engulo essa história de “comida que sustenta”. Toda comida sustenta, o que essa turma quer é “peso no estômago”, que vão comer pedras.

    E palmas para Ror-re, que por certo deve ter sangue sarraceno correndo pelos vasos sanguíneos.

  2. Ah…acho que ninguém tem aquela obrigação de saber o que é “cerrado” e tal…mas eles eram bem folgados sim. BEM folgados. O Jorge deve ter cuspido!!! kkk. Que medo.

  3. Ai que vergonha!! E ainda por cima sao burros!! O que é cerrado? Que tapados !! Eu chamaria o Jorge de lado e diria cuspa nas cerveja deles ele estao pedindo!!!kkkk Mas eu bem que acho que foi isto que ele fez hahahahah

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