50 :: IR DE SEVILHA A FES…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…DE ÔNIBUS

Assim, a olho nu, parece uma escolha esquisita. E é, mas não tanto. O fator aventura, que se for com segurança, é sempre bem vindo.
Numa procura pela internet meu marido descobriu a Eurolines, uma companhia holandesa de viagens de longa distância. A passagem foi comprada pela internet de forma muito eficiente e bom atendimento. O caminho mais ortodoxo é fazer de avião e tem muita passagem barata para Fés.

OLHA O SITE, QUE BONITINHO…

10 de outubro, o plano
Nosso ônibus sairia as 4:30hs, mas mandaram chegar uma hora e meia antes.
A poucas horas atrás tivemos nosso jantar de despedida da Espanha, que afinal, foi uma viagem muito bonita. Relembramos nosso roteiro que nos fez entrar gradativamente no mundo árabe: Barcelona, pela arte catalã. Valência e Almeria, pra aproveitar o caminho. Andaluzia para entrar no clima do que seria o grande destino das nossas férias: Marrocos, nosso mergulho final no mundo das Arábias.

Estamos certos da nossa decisão de fazer Sevilha-Fes de ônibus. Tudo pra não ter que ir até Madri pegar um avião, nem passar por deslocamentos, aeroportos, malas, check-in…afinal, estamos a cinco minutos da estação em Sevilha e nosso riad em Fes também é perto da estação e eles vão nos buscar de carro.
E olha que maravilha: ainda podemos aproveitar este tempo para dormir um pouco, porque na Espanha a gente pirou e chegou no hotel quase todos os dias de madrugada. Tudo se encaixa, a única coisa esquisita eram as 16 horas de viagem, nas nossas contas dava 10 horas no total, mas tudo bem, vamos nessa. Fomos para a estação de ônibus, em Sevilha.

10 de outubro – 3 da manhã
Perguntamos para uns taxistas onde era a entrada da estação. “Está cerrada, solamente as 5 e media.”
Como assim? Nosso ônibus sai as 4 e meia? E eles disseram “Eurolines? Marruecos? Ele passa por aqui, na rua, eles não entram na estação.”
Ficamos no lugar indicado, já desconfiados de tudo e com uns nóias bem pertinho, olhando para a gente. Em meia hora (as 3:30!) encosta um ônibus da Eurolines.
A porta se abre e aí começou a bizarrice, o “capitan” (a gente sempre coloca uns apelidinhos bobos nas coisas e pessoas) do ônibus deu uma olhadinha de leve na passagem, e ficou perguntando “Fès? Marrocos?”. Comentou muito por cima que lembrava que pegaria dois brasileiros ali e tal, muito vago. Não pediu passagem, dentificação, nada. Entramos sem saber se estávamos no ônibus correto, afinal, este estava adiantado em uma hora. E os outros passageiros que embarcariam na mesma parada? Não tinha mais ninguém? Era só a gente mesmo e os marroquinos (só marroquinos) que já estavam no ônibus. Até que ônibus era confortável, nada demais. Mas não era mais Espanha, já era Marrocos. E os comandantes da coisa não falavam nada que não fosse árabe.

10 de outubro – 5:45
Chegamos em Algeciras, de onde sai o ferryboat para Tanger.

QUEM ME DERA…

Informação zero. O busão parou e lá ficou. Seis e meia, nada. Sete horas, um vento forte soprava. Abriu a cafeteria, tomamos café e informação zero. O vento só aumentando, mais ônibus chegando. Oito, nove, dez horas…

QUEM DIRIA QUE HORAS ANTES O DIA ESTAVA LINDO?

10 de outubro – 10:30
O “capitan” manda (manda mesmo!) todo mundo descer do ônibus e ir para o embarque – em árabe! Foi aí que conhecemos Fatima. Uma senhora uns 60, 70 anos, usando lenço islâmico, que ia sempre visitar os filhos na Espanha, sozinha. Ela nos disse em um esforçado inglês o que ela achava que estava acontecendo. Uma ressaca no oceano, e uma ventania danada impossibilitava a viagem. Enquanto isso aconteceram muitas investidas e ameaças de embarques e em todas elas víamos nossos passaportes sumindo da nossa vista na mão do “capitan”. Medo. E vai discutir com eles, vai. O cara começava a falar em árabe sem parar, surtado. Nem devovler o passaporte na minha mão ele não fazia, só na mão do meu marido (!). Desistimos de resistir.

JURO, EU TAMBÉM DEITEI NESTE CHÃO E DORMI DE SONHAR

10 de outubro – quase meio-dia
O vento virou tormenta das feias e o porto fechou para qualquer embarcação.
A estação parecia Cumbica no auge da crise aérea, um grande albergue. E começamos a conhecer outras pessoas, Mohammed, que mora em Lyon na França que pegou este ônibus em Paris. Assiah, uma moça que vive na Espanha e esta indo visitar a família. Os dois nos ajudaram, Assiah fala espanhol, um pouco de inglês e a gente se virava com isso.

MEUS AMIGOS MOHAMED E FATIMA

Eu queria ir para um hotel mas nossa bagagem estava no fundo do maleiro do ônibus (pois mais pessoas embarcaram com muita bagagem) e não dava pra confiar que nosso amigos comandantes iriam nos esperar. Nestas horas a gente não pensa direito, a solução era perder a grana e depois pegar a barca e se deslocar de Tanger para Fes, onde tínhamos reserva. Mas como estavam sempre dizendo que já ia liberar a gente vai ficando e ficando. Acabamos dormindo no ônibus, do jeito que deu, todos sem banho, e com gente fazendo lanches bizarros com todos os vidros fechados. O ônibus balançava de lado com as rajadas de vento.
E assim ficou até as 9 da manhã de 11 de outubro.

FILA? NUNCA!

11 de outubro – quase meio dia
Recebemos nossos bilhetes e ordem para embarcar. Fila? O que é isso? Um grande bolo de gente para fazer controle de passaporte. Parece que o ferryboat sairia as 13hs.
Meio dia e meia, o bolo cresce e eles desistem de fazer o controle.

ESTA HORA ME DEU MEDO, MUTO MEDO!

Todos entram, só recolhem os bilhetes. Entramos na balsa, parecida demais com a que faz a travessia Salvador-Itaparica, só que dez vezes maior. Quando subimos a escada, surpresa! Um ambiente bem iluminado, com poltronas estofadas, piso de madeira, cafeteria, lojas de grife, restaurante. Algo assim como o lobby de um bom hotel.

LUXO, LUXO. QUE SURPRESA

11 de outubro – 13:30

Saímos de Algeciras e começaram as quase três horas de travessia. Assiah me deu um Dramin, graças a Deus. O mar estava feio e muita gente vomitou.
O controle de entrada da polícia marroquina foi na balsa, meu passaporte foi carimbado sem minha presença, só pelo fato de meu marido ter assegurado que eu estava lá mesmo. Duas espanholas que estavam com a gente não conseguiram fazer o mesmo pelo filho de um delas, o garoto teve que ir até as autoridades todo molinho de tão enjoado.

O MAR MAIS CALMO  E MINHA PRIMEIRA VISÃO DO MARROCOS, TANGER
ENJÔO?

11 de outubro – 16:00

Chegamos em Tanger – cidade feia, feia – um bolo só de gente, marroquino odeia mesmo fila. A entrada no país foi checada assim, por amostragem no meio do bolo de gente.

CRISTO! QUE MEDO ESTA HORA, QUE MEEEDDDOOOO!

Bom, acertar os relógios, duas horas a menos. Essas duas horas e mais um pouquinho perdemos na transferência de bagagem entre os três ônibus que iam para Fes, Rabat e Marrakesh. Um bolo enorme, sacoleiras fazendo o maior escarcel pelas suas coisas que não cabiam nos três ônibus que foram unificados.
Barraco total, mas enfim saímos. No ônibus apenas marroquinos e um casal de californianos. Agora falta pouco, umas quatro horas de estrada. Paramos no meio do caminho para comer. Um boteco de beira de estrada, com carneiros pendurados, cheios de moscas. A comida cheirava bem demais mas meu estômago já estava pra lá de embolado pelas muitas horas no ônibus e a comida ruim. Só comemos pão e refri. E eu ainda arrumei encrenca com o cara por um troco errado. Ridículo, a grana correspondia a uns 10 centavos de real, ou menos.

EM SENTIDO HORÁRIO: AS DOCAS DE TANGER, MINHAS PRIMEIRAS PLACAS ANALFABETAS, O BARRACO DAS MALAS QUE NÃO CABIAM NO ÔNIBUS E VERSÃO DE MIRINDA MARROQUINA QUE FEZ MEU MARIDO VOLTAR A SUA INFÂNCIA, EM VIAGENS PELO NORDESTE

Mas a viagem foi tranquila, um homem nos trocou dinheiro com um câmbio bom, afinal, em Tanger não nos deixaram fazer isso. O mesmo homem nos ofereceu o celular para ligar para o riad (pousada em árabe). Muito simpático, mas não conseguimos ligar do celular dele.

E MINHA FOTO PREFERIDA DESTE POST, OS BICHINHOS PENDURADOS

11 de outubro – 23:00. Horário local.
Chegamos em Fes. Ali descobrimos que o telefone do riad que estávamos falando desde o começo do rolo não era do Marrocos, mas sim de Londres, onde os donos moravam, por isso a gente não conseguia fazer do celular do rapaz, ainda bem coitado, sairia caro pra ele.
Não tinha ninguém nos esperando na estação por causa do atraso, nem nossos telefonemas foram suficientes para corrigir este problema. Era tudo que eu não queria, chegar em uma cidade complicada com Fes tão tarde da noite e sem apoio.
Mas a história se resolveu e finalmente, quase 45 horas depois do esperado chegamos ao Riad Tizwa.

Resumo da ópera
Umas 10 horas foram de viagem mesmo. 24 horas foram perdidas por problemas meteorológicos. Umas cinco em consequência do mesmo problema, pelo acumulo de gente e tal. E as outras horas? O rolo normal da vida marroquina e a falta de talento pra filas. Afinal, o terminal de embarque do ferry em Algeciras já não é mais Espanha. É puro Marrocos e sua cultura.
Valeu a pena? Não. E se fosse sem a tormenta? Talvez, pela aventura. Acho que não corremos risco nenhum.

Tem um cara que fala um pouco sobre a Eurolines: João Leitão, um portuga muito viajado e descolado.

5 Responses to “50 :: IR DE SEVILHA A FES…”

  1. Oi, Ana!
    Essa viagem foi bem conturbada, mas mesmo assim, a maneira como você conta suas viagens, dá vontade de arriscar essas aventuras, rsrs.
    E parece que vc conhece bem a Espanha, hein? Que invejinha… um dia ainda sairei deste meu mundinho para explorar mundinhos alheios tb!😀
    beijooo!

    • Xiii Bianca, conheço não, não ainda. Conheço algumas cidades, viajando mesmo. Mas falo das cidades como se fossem amigas! kkk. Aventura é bom, mas há limites, tem que ter cuidado, um pouco pelo menos…
      E saia do mundinho, saia. Nem espera viajar pra sair dele, tem muitos jeitos de sair do mundinho sem se descolocar nada ou muito. Garanto!

  2. Gostei! Nao faria isto nunca!!kkkkk Mas gostei!

    PS:Ah! Nao gostei da foto com estes porcos ou sei la o que pendurado coisa mais medieval assim meio que na rua! Eu hein.

Trackbacks

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: