Posts tagged ‘Espanha’

23/05/2011

81 :: ESTAR, AO MENOS UM DIA, EM CÓRDOBA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NA ESPANHA ANDALUZ

{sentido horário: pôr-do-sol na Ponte Romana, chão de pedras e escultura na estrada da Catedral}

Eu não tinha expectativas em relação a Córdoba. Pequena, boa para descansar um pouco… Nada demais.
Lá não aconteceu nenhuma refeição inesquecível, não tomei meu hamman por estar gripada, o hotel na juderia, Los Omeyas, era  honesto para os 70 euros a diária. Não houve nenhum causo a se contar…nada demais. E, mesmo assim, foi mágico.

{um canto típico, perto da cidade murada}

Andamos pelo bairro judeu, entramos em lojinhas, vimos Os Contos de Alhambra, de Washington Irving, em tudo que é idioma. Vimos também vários pátios bem fake, pra turista. Tomamos chá em uma teteria que se saiu uma experiência bem meia boca, pensamos que iríamos ser assaltados mas era um cara nos ajudado a achar um endereço na pura boa vontade. Jantamos em um lugar, o Los Patios, que esqueci a comida tão logo saí (sinal que não foi bom nem ruim) mas que tinha plantas em vasinhos de barro espalhados pelas paredes.
Enfim, uma visita sem pretensões (ah, comprei uma pulseira linda, de prata, que uso muito).

{sentido horário: lembranças, Los Pátios, Salão de Té e Los Pátios e sua geladeira "old-fashioned"}

A visita a Catedral de Córdoba (ou a Mezquita, com z) foi tranquila e sem correrias e lá dentro estava tão fresco, calmo e…tãããooo silencioso. O lugar é realmente incrível. Os embates entre cristãos católicos e muçulmanos aparecem aqui e ali, nas misturas de estilos e no opulento altar católico plantado no meio da mesquita. Os arcos mouriscos em forma de ferradura proporcionam uma sensação de profundidade infinita. Demais.
Vale a pena ler sobre o assunto em um guia, desta maneira sempre se aproveita mais uma visita histórica e neste caso é indispensável.

{o Pátio de los Naranjos ao fundo...}

Na entrada não passe batido pelos Patio de los Naranjos, em outubro está carregado de frutas e em abril (me contaram) florido.

{sentido horário: espeho d'água no Pátio de los Naranjos, entrada da Catedral e o pátio}
{quilos de lutas pelo poder em tintas e adornos}

No final da tarde, depois do banho, andamos mais a pé do nosso hotel até a Ponte Romana, onde vimos um pôr-do-sol enfeitado por revoadas. Com a temperatura caindo levemente sentimos o cair da noite ao mesmo tempo em que as flores de jasmim soltavam seu aroma doce pelas ruas da cidade.

{uma porta que leva à cidade histórica}

Foi inevitável cair no clichê de pensar se este era o mesmo aroma de séculos atrás, quando judeus e muçulmanos pisaram aquelas ruinhas calçadas de pedra de rio.

{onde senti o cheiro forte dos jasmins...}

No dia seguinte, meu marido acordou dizendo ter sonhado que estava andando entre as colunas da catedral, sozinho. De som apenas os seus passos, com um sapato de sola dura, ecoando no vazio. Toc, toc, toc…

{e enfim, o lugar do eco dos sapatos}

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02/03/2011

74 :: SHOW DAS FONTES MÁGICAS…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…DE MONTJUÏC, EM BARCELONA

Chegada complicada em Barcelona. Uma mala supostamente extraviada, registrada como perdida e encontrada (por mim) em um quartinho obscuro. Lojas fechadas para comprar uma pilha esquecida em casa, e apenas aquele dia para ver o espetáculo de águas na La Font Mágica, que fica nas escadarias e alamedas em frente ao majestoso Museu Nacional d’Art de Catalunya, lá em cima, em Montjuïc. Era o último, aos domingos, antes do inverno.

Desistimos da tal pilha – e de comprar um cartão telefônico para avisar nossos pais da chegada (dado importante em tempos de barradas de brasileiros na entrada à Espanha) e pegamos nosso lugarzinho, no guarda corpo, bem em frente a fonte.

É brega, não vou mentir. Porém, um brega bonito – e bem feito. Tá bom, é uma coisa impressionante.
Imagina. Uma escadaria enorme (uns 200 ou 300 metros, talvez?), repleta de fontes, seguida de um patamar, onde mais gente se aglomera, e enfim a Av. de la Reina Maria Cristina, que tem um canteiro central de fontes e vai dar na Plaça d’Espanya.

SEM A FOTO CERTA FICA DIFÍCIL, MAS DÁ PARA IMAGINAR ESTE CAMINHO TODO ILUMINADO POR FONTES DANÇANTES, COM FORMATOS E CORES DIFERENTES?

A música começa tímida, com umas aguinhas pulando aqui e ali e vai ganhando potência, cor, ritmo…bem sincronizado. É uma pena, eu não tem “a” foto da coisa grandiosa (não tem nada a ver com o shor de águas de Poços de Caldas. Não que eu não adore Poços, mas não é exatamente por seu show das fontes luminosas).
O repertório varia de eruditas a pops e culmina (imagina?) em Barcelona, com Fred Mercury e Montserrat Caballé. Mais clichê impossível, e emocionante. Pense no primeiro soprano, a todo pulmão: “Barceloonnaaaaaaa. BarceloonnaaaaaaaAAAAAAAAAAA”.

Resultado: nó na garganta, os olhos se encheram de lágrimas e eu disfarçando: “Oi, vamos ali, comer umas tapas!” ou então “Olha, o passarinho, que bonito.” ou no clássico “Entrou um cisco no meu olho.”

E meu amor por aquela cidade, que já havia comecado bem, no passeio de fim de tarde em Montjuïc, estava totalmente consolidado.
Sou facinha, facinha…

27/02/2011

73 :: COMER TAPAS NO BAR LAS TERESAS…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NO BARRIO SANT CRUZ, A ANTIGA JUDERIA DE SEVILHA

Adoro as comidinhas da Espanha – as comidonas também.
Me acabei nas tapas, as porçõezinhas para se comer antes do tardio almoço espanhol, acompanhada de uma bebidinha…

Nossa estreia com estas porçõezinhas  foi numa conhecida casa de tapas, a Tapa Tapa, em Barcelona.
Foi gostosinho e tal mas me senti no – Mc Donalds, seria demais – Bob’s das tapas. Eu queria algo mais, aquele lugarzinho com cara de tradicional. Acho que é mania de paulistano que adora um boteco fake, copiado dos tradicionais botecos cariocas. Vai entender…

O bar Las Teresas, em Sevilha, foi um prato cheio (oi!), literalmente. Tropeçamos nele meio por acaso mas era aquilo mesmo que a gente queria.

A comida era boa, gostosa. Não lembro se era excepcional mas indicaria como algo honesto, foi honesto sim.
E, não posso esquecer que desta experiência trouxemos algo para o cardápio da nossa casa: pimentões assados em tiras longas e largas, servidos com queijo de ovelha (a gente adapta a falta do queijo certo :d).

Porém, o legal deste bar é a atmosfera, o enredo, a rua estreita no Barrio Sant Cruz, o ambiente de decoração pesada de madeira e ladrilhos, o cardápio sem fim – daqueles que dá náuseas só de pensar que terá que fazer escolhas – e os garçons que te tratam com casca e tudo.

Enfim, a Espanha clássica.

22/02/2011

72 :: TOMAR UM CHÁ DE AMÊNDOAS…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…EM UM SALÓN DE TÉ EM CÓRDOBA

Sempre digo que costumo imaginar algumas as coisas bem melhores do que elas realmente poderiam ser. Não custa repetir, quem sabe tomo vergonha e perco o hábito.

Um exemplo clássico: noite em Córdoba, pouca vontade de jantar e uma oportunidade para fazer uma daquelas coisas que estava na listinha de turista: tomar um chá em uma teteria andaluz, com doces árabes, clima incrível, odaliscas, véus esvoaçantes, tambores de tribos espanholas nômades falando um raro dialeto marroquino, enfim…minhas viajadas.

Na manga, o Salón de Té, um lugar super bem indicado. Vale a pena entrar no site, a música é tão bonita…

Bem, o lugar era mesmo bonito, tinha uma linda carta de chás e sucos exóticos.
Pena que faltou a música, as dançarinas, os véus, o clima. Faltaram as pessoas também e a boa educação do cara que atendeu. Uma outra coisa que faltou foi o tal suco de romã que meu marido pediu, feito com um tipo de groselha (oi?) mais artificial impossível. Os doces eram assim-assim, normais. Nem de doces árabes eu gosto…mas ele adora, tadinho.

Bem, o chá. Fomos lá para tomar chá, certo? Pedi um chá de amêndoas.
Foi o melhor chá de todos os tempos, de todos os chás conhecidos no mundo mundial. Era o mesmo que encher a boca com uma cápsula morna de amêndoas liquidas. E  o aroma? Divino. Nunca pensei em gastar tantos adjetivos em ervas que ficam de molho em água quente.

O resto foi uma grande roubada. Ainda bem que nosso humor estava estratosférico e tivemos um acesso de risada que custou a passar. Cada puxada de canudinho no suco fake de groselha feita na China (não vi, mas tenho certeza que era feita na China) que meu marido dava era um acesso de risada mais descontrolado, e besta, daqueles de quem não sai de casa só para se dar bem.

Com tudo perdido tiramos muitas fotos (ruins, com dá para perceber) sem vergonha de ninguém já que não tinha ninguém de quem sentir vergonha.

E, pensando bem, esta música do site, que deixei em background, está me deixando enjoada.

 

21/02/2011

71 :: IR DO AEROPORTO, COM UM PIT STOP…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NO HOTEL, DIRETO PARA MONTJUÏC, EM BARCELONA

Jogar as malas sobre a cama, se trocar (ou não) e sair a pé, reconhecendo o terreno. É meu ritual na chegada em uma cidade nova. É infalível, seja para um sorvete a meia noite ou um passeio mais elaborado, se o voo chegar cedo.

Chegamos em Barcelona mais ou menos uma da tarde. Dia lindo, temperatura perfeita, próxima dos 20°.
O céu azul de doer nos convidava para começar por Montjuïc, o morro ao sudeste da cidade, que abriga o Museu Nacional d’Art de Catalunya, jardins, museus, um castelo, muita história…e uma vista linda da cidade.

Pequenos trechos a pé, de metrô, de funicular e o simpático teleférico nos levaram rapidinho ao topo da cidade.

Uma visitinha leve ao Castell de Montjuïc e seu telhado de onde ficamos um tempão olhando a cidade…

…o céu e o mar que banha Barcelona.

Em um jardim, de onde se avista um bairro cheio de prédios e um outro monte, compramos duas granitas (a versão catalã da nossa raspadinha) e ficamos curtindo, vendo um grupo de amigos, com suas famílias e filhos pequenos. Eles comiam, tomavam vinho, cantavam e tocavam violão.

Ouvindo aquelas músicas de ritmo cigano fiquei imaginando se alguém da minha família teria habitado aqueles montes em alguma época distante.

Esta foi minha primeira Barcelona.

 

 

 

 

 

09/01/2011

67 :: ANDAR (E COMER) NO MERCADO…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

… LA BOQUERIA, EM BARCELONA

O La Boqueria é bonitão, barulhento, divertido e fica na Rambla que por si só já é bem alto astral.

Tudo bem, é um programa manjado, mas é dos bons para quem gosta de mercadão, de ver comida e tal.

As mercadorias muito bem organizadas, expostas com primor.

Coisa bonita de ver. Limpinho. Os pescados são muito frescos! Nenhum vestígio de cheiro ruim.

Será que eles vendem tudo isso no mesmo dia? Acho que sim, né?

Uma infinidade de tipos de cogumelos.

Frutas variadas, docinhos…

Paraíso dos gourmets e para quem gosta de jamón.


Ah, levamos lascas para fazer piquenique no quarto, a noite.

Enfim, o La Boqueria é mesmo um programão. Se for na hora do almoço, melhor.

Bem que tentamos comer no Pinotxo, bar bem frequentado (Ferran Adriá dá a pinta por lá) mas a comida tinha acabado (tarde demais para o almoço, cedo demais para o jantar…coisas da Catalunha).

É. Não foi uma troca injusta, não consigo imaginar quanto poderia ter sido melhor no bar famoso.
O nome do lugar? Vixe. Não lembro. Olhando com muito esforço e boa vontade na foto tem um “Bon App…” gravado no prato. Não sei se tem a ver com o nome do lugar ou uma saudação educada. Meu Deus, quanta bobagem! Achei o bar. É o Kiosko Universal. Tem até o mapinha do danado, é o 691, bem no pé do mapa.

Bom apetite?! A gente já estava babando com aquele aspargo fresquinho sendo grelhado ali na nossa frente, apenas com sal grosso, com uma tampa de panela por cima, crocante e perfeito. Mais uns peixinhos, camarões (que eu não curto muito não) e uma coisa que eu morria de vontade de comer desde que tinha visto numa foto da Suz, do Segura em desemprego: a navajas, um molusco compridinho e delicioso.

Ah, o cardápio não foi escolhido, era o que tinha. Não tenho do que reclamar.

Almoço sensacional, não chega a ser nenhuma pechincha mas é quase baratinho…hehehe.

O La Boqueria é um prédio histórico simpático (não tão bonitão quanto o Mercadão de São Paulo).
Fica do lado direito, quase no meio da Rambla, para quem desce. E tem o site, né? boqueria.info
Eu iria antes de morrer. E a Espanha é um daqueles destinhos que sempre tem uma promoção ou passagem baratinha.

04/01/2011

66 :: FOTOGRAFAR UMA NOIVA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NA PLAÇA CATALUNYA EM BARCELONA

Eu acho tão romântico ver noivos sendo fotografados ao livre, em praças, monumentos, jardins…
Em plena segunda feira, no meu primeiro dia de viagem em Barcelona, vi este casal simpático sendo fotografado.
Eles pediram uma ajudinha para dar um susto nas pombas, pra foto ficar mais animada. Ajudamos – e fotografamos.

1, 2, 3 E JÁ!!!

Esta foi de minha autoria, em película, em um único clique (que só vi o resultado depois de uns 30 dias).

Não sei se a fotógrafa conseguiu o resultado desejado.
Tive pena de não ter o e-mail dos noivos, eles iriam gostar desta imagem que tenho deles, em um momento tão especial, congelado.

 

 

18/09/2010

49 :: PEDIR PARA O GARÇOM…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…ESCOLHER O QUE VOCÊ VAI COMER

A cena: duas pessoas andando sem rumo em Eixample, Barcelona. O lugar escolhido para jantar: Casa Alfonso, restaurante tradicional, charmoso.

CASA ALFONSO, ESCOLHIDA AO ACASO, UM ACERTO

Figurantes: amigos de trabalho no happy hour e velhinhas levando marmitex para casa.

PORQUE A GENTE SE ACHA ESPECIAL QUANDO JANTA COM “GENTE DO LUGAR”?

Personagens principais: eu, meu marido e Isabel.

ISABEL, RAPIDINHA PELO SALÃO

Ela chegou séria, oferecendo o cardápio. Nós pegamos nosso livrinho de catalão para viajantes e arriscamos um “o que tem para comer?”. Ela ficou meio sem entender e explicamos melhor que queríamos comer algo especial, algo catalão, algumas coisinhas com a cara de Barcelona sem ser as tapas, e confiávamos na sua escolha as cegas.

Acho que nosso interesse foi a senha de entrada no coraçãozinho de Isabel. E a mulher com cara de braba foi se tornando simpática e escolheu nosso jantar, as bebidas, a sobremesa, tudo.

SALADA, UMA COISA QUE CHAMAMOS AMAVELMENTE DE “LINGUIÇON”, PÃO DE TOMATES, ASSADOS DE LEGUMES, CREMA CATALANA. ENFIM, UM BANQUETE CATALÃO

Comemos até esquecer o infortúnio que é ser roubado em uma viagem. Eu, a esperta das viajantes, fui vítima de um carteirista comum, crime manjado. Mas o fato foi que este episódio não afetou nossa percepção da cidade, nem das pessoas. E por mais que tenhamos ouvido falar da grosseria catalã não tivemos mais além de gentilezas. Sorte? Talvez.

XXX
O PRIMEIRO CAFÉ IRLANDÊS A GENTE NUNCA ESQUECE

Não costumamos beber (embora posts deste blog procurem insistentemente provar o contrário) mas neste dia bebemos Clara (cerveja com refrigerante de limão), sangria e de cortesia da nossa anfitriã um café irlandês, bebido de um gole só depois de pedirmos a conta com um el compte si us plau (a-do-ro catalão).

ÁLCOOL, SÓ AS VEZES, EM VIAGENS

Na despedida meu marido – a estas alturas, uma pessoa desinibida e falando sua própria versão de catalão fluente – agradeceu lascando um beijo na mão de Isabel – que ficou surpresa mas acabou rindo. Depois disso só me restou também abraçá-la e beijá-la nas bochechas, como se fosse uma velha conhecida (quem disse que eu tenho moral para falar mal de gente que “causa” em ambientes públicos?).

No auge da bebedeira bem que meu marido avisou, meio de brincadeira, para a Isabel onde era o nosso hotel (e do quarto!) para o caso de ter que chamar um táxi para dois incapazes.
Foi duro, muito duro, vencer as dez – enooooormes, nunca vi tão grandes – quadras que resolvemos fazer a pé, sabe Deus o por que desta decisão.

Experiência ótima, repetiria fácil. Moltes gràcies, Isabel.

Sabe? As vezes, quando eu me imaginava andando pelas ruas de Barcelona achava tudo meio caro, meio impossível. É questão de se programar, pesquisar melhores tarifas de hotéis e hospedagens, não fazer questão de muitos luxos e se contentar com conforto e as vezes mimos.

07/09/2010

48 :: SENTIR VERGONHA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…PELA VERGONHA ALHEIA

Ser brasileiro tem seu charme no exterior e, mesmo sem querer, as vezes abre portas.
A etiqueta é mais ou menos assim: pode receber gentileza por ser brasileiro. É simpático da parte de quem a faz mas tentar desenterrar vantagens na marra é constrangedor, ainda mais quando não se obtém sucesso. Fica mal, sempre.

Foi em um jantar em Sevilha que vimos um exemplo disso.
A cena não poderia ser mais perfeita para uma noite de outono na Andaluzia.
O lugar era a Cerveceria Giralda – pra variar, escolhida ao acaso. Nossa mesa tinha vista para a rua e para as laranjeiras carregadas. A temperatura estava lá pelos 23 graus com um vento morno avisando que traria chuva pela manhã. Música espanhola ao fundo e nós dois com um cardápio de tapas nas mãos. Nada mal.

ESTAS LARANJEIRAS CARREGADAS ME ENCANTAM!

Pedimos codorna e mais umas porções de tapas, nem me lembro mais quais eram.

EXISTEM DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE NÃO FOTOGRAFAM COMIDA E AS QUE FOTOGRAFAM. NO DETALHE: CAMARÕES COM QUEIJO, CODORNA E UMA SOBREMESA VERDADEIRAMENTE GOSTOSA, COM BASE DE CHOCOLATE E AMÊNDOAS. É O MÁXIMO QUE POSSO LEMBRAR A ESTAS ALTURAS.

É que nessa refeição o que marcou foi a sobremesa, o popular Tocino del cielo, um típico doce espanhol – que não tem nada a ver com o do mesmo nome, português – que injustamente confundi com pudim de padaria, que eu adoro, mas não queria comer uma versão espanhola dele e sim experimentar algo diferente. Por este pensamento quase perdi a chance de comer o doce dos doces, basicamente um pudim de ovos, uma coisa de louco, cremosa, perfeita, doce, leve e…e…feliz.

PARECE UM SIMPLES PUDIM, MAS NÃO É

Estava eu lá, lambendo os beiços com minha sobremesa e chega uma turma barulhenta de brasileiros. Veja bem, uma turma barulhenta num bar espanhol não é para qualquer um. Eram cariocas, pelo sotaque – morram de vergonha cariocas e nem é pelo barulho.
Achamos super divertido aquela turma animada, sem vergonha de rir alto e contar piadas mais alto ainda.
Daí começamos a ouvir o papo, mesmo porque não era opcional. Eles estavam há 4 dias na Espanha, vinham comendo McDonald’s este tempo sabe Deus porque e se perguntavam o que era tapas mesmo. Achei meio esquisito mas, nunca se sabe. Eles poderiam estar em algum retiro espiritual onde as pessoas não podiam falar, nem ouvir, nem sair na rua na Espanha. Vai saber.
Um deles disse: “Tapas?
E outro responde: “Tapas é porrrrção. É a mesma coisa que no Brasil, mas aqui chama tapa.”
[Certo. O Aurélio explica mais ou menos isso: s.f.pl. (pal. esp.) Culinária. Na cozinha espanhola, conjunto de pequenas entradas variadas, servidas como aperitivo. Ou se quiser uma explicacão mais detalhada a Timeout faz isso direitinho.
Outro retruca: “Ahhh, eu já comi isso um dia desses mas achei que vem pouco, a gente fica com fome. Por isso estava investindo no McDonald’s, sustenta mais.”

Gosto não se discute, discute? Não.
Depois de contar piadas, rir, pensar em ir embora eles decidem que vão pedir os tais tapas. Chamam o garçom, fazem seu pedido que é respondido com aquela objetividade espanhola tão característica: “No hay tapas, la cocina ha cerrado“.
Ã? Até parei de comer para ver no que ia dar.
“Cerrado? O que és cerrado?”
“É fechada, ele está dizendo que a cozinha está fechada.”
“Ô moço, como é teu nome?”
Silêncio.
“Acho que ele só entende em espanhol.”
“Co-mo-és-túúúúúú-nonnnnnn-bre?”
E o garçom responde, cheio de marra: “Jorge.” (pensa numa pronúncia bem espanhola: ror-re).
“Ror-re, ror-re???”
“Ah, eu sei. Ror-re é Jorrrrge em português!”
E a mesa toda diz em coro: “Ah…Jorrrrrrge”
“Ô Jorrrrge, quebra essa mi amico, uns tapitas, umas cerbezas, para nós amigos brasilianos.”
Uma farofa só – e eu posso falar, eu também não falo espanhol.
E o Jorge lá, implacável.
Tenemos cerveza, pero la comida…la cocina ha cerrado.”
E o povo insistia.
“Jorrrrge, somos brasilianos, biemos de brazi apenas para cumer tu tapas.”
E falavam entre eles, como se Jorge ali não estivivesse:
“Tem sim, ele quer ir embora, é tarde. Mas aperta ele que sai.”

Ai que vergonha.
E não teve jeito, o Jorge falou está falado, e foi quase isso que ele quis dizer, não que não fosse verdade: “Acabou a p**** da comida. Bebam cervejas, se quiserem.”

JORGE, MAIS MARRENTO QUE O MAIS MARRENTO DOS CARIOCAS (NADA COBTRA CARIOCAS, ADORO)

Pedimos a conta em portunhol muitíssimo esforçado em fazer bonito e fomos embora ao som dos impropérios da turma de amigos aguardando suas cervejas.
Bem que eu queria ver no que deu mas um ônibus (sim, um ônibus) as 4 da manhã, nos esperava para atravessar o estreito de Gibraltar com destino ao Marrocos.

Cervecería Giralda
c/ Mateos Gago 3
Tel. 954 22 82 50
Aberta todos os dias

01/09/2010

47 :: DEIXAR O SOM DO FLAMENCO…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TE CONTAGIAR, TE FAZER CHORAR DE ALEGRIA E TRISTEZA

É a música da dor, do amor, das raízes e – na minha humilde opinião – da sensualidade. É também onde cada gotinha do meu suposto sangue espanhol parece tomar conta do meu corpo e tenta a todo custo fazê-lo sair sapateando e batendo palmas ao som dos violões. Ui, acordei!

Meu primeiro contato com o flamenco profissa foi em um show da Eva Yerbabuena. Flamenco moderno, de gente que já foi além. Foi inevitável, neste dia nasceu dentro de mim a viagem para a Espanha.

Meu primeiro flamenco em solo espanhol foi em Sevilha e a coisa foi assim.

Primeira experiência: o lugar é algo no estilo barracão de escola de samba mas menor (não que eu já tenha ido em uma, mas imagino assim). Lugar com fachada comum, sem placa. Não paga para entrar e consome se quiser. Simples assim.

O show começa tarde, depois das 11. O lugar lota de espanhóis falando alto, fumando e tomando cerveja.
Eu já estava com sono quando aparece um senhor, faz um hãn-hãn e avisa que cigarro e voz não combinam, que o show vai começar e que todos se prepararem para o momento – só falta fazer uma oração para começar.

Todos obedecem apagando seus cigarros e fazendo silêncio. Daí, no pequeno tablado de madeira, sobem uma magrela com roupa de dança flamenca, um cara com pinta de bancário e o tal senhor do hãn-hãn versus cigarro. E daí, minha gente, começa o show.

Ai que coisa linda, que sentimento. Por pura mágica a mulher feia virou uma linda dançarina, o bancário não parecia uma pessoa nada comum tocando lindamente o violão e o tio do hãn-hãn sabia fazer muito mais que hãn-hãn, ele cantava com a alma, cantava um lamento que só poderia sair do fundo do coração, e batia palmas.

Não vi a hora passar.

O cruel é que a nossa micro-Nikon-recém-adquirada-na El Corte Inglês deu pau e não teve som. Morri de ódio, estava quase me recuperando disso mas escrevendo agora lembrei e morri de raiva de novo. Humpf. Então se alguém quiser ver vai ter que fazer o sacrifício de ir no La Carboneria (não sem se informar antes se vai abrir naquele dia) ou ver um videozinho no youtube, com o mesmo cantor e instrumentista daquela noite. Sensacional.
Ah, tem mais este videozinho, sente o clima boteco. É a mesma dançarina que vimos.

Segunda experiência: showzinho para turista. Escolhemos este show no olho, na entre entre as dezenas que recebemos na rua. E sabe? Não foi ruim, nem um pouco chato nem nada de negativo.
Era um teatro pequeno, com aquela iluminação de casa da luz vermelha e jogos de canhões de luzes coloridas no palco, cadeiras vestidas, mesas, garçons e muitos velhinhos ingleses na plateia – muitos mesmo, tipo excursão.


O grupo de artistas era maior, a dançarina principal cheinha, dançarinos masculinos (ou quase isso) que me deixaram tonta tentando acompanhar o movimento das pernas no sapateado e mãos batendo no peito.

E a cantora era mulher, voz lindíssima.

Show! Literalmente.

Não, não tenho filminho com som deste também, a gente ainda não tinha percebido o pepino! Humpf duas vezes.
Olha, a Casa Carmen Arte Flamenco não decepcionou e duvido que alguma outra tivesse sido ruim para o meu ponto de vista leigo.

Adorei as duas experiências mas se tivesse que repetir apenas uma ficaria com a versão roots do La Carboneria.