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03/11/2012

87 :: Dizer algumas coisas…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…que ninguém diz sobre a infertilidade

Este post também poderia se chamar “Como manter a sanidade mental
quando você esqueceu de passar na fila da fertilidade antes de nascer”.

Veja se te soa familiar?
– Tem namorado? Não? Ah, tá.
– Tem? Hum, que bom. Quando casa?
– Casou? Parabéns! E quando chega o herdeiro?
– Tem filho? Que legal. Não vai ficar com um só, né? Quem tem um não tem nenhum…

Pare na parte do “tem filho?” e fica repetindo anos e anos. Rá, esta sou eu! Esta ladainha faz parte da vida de quem não quer ou não consegue engravidar, da mesma maneira que outras pessoas passam por outras mazelas quando as coisas fogem um pouco dos padrões, sejam eles quais forem.
Eu tenho 42 anos, não tenho filhos e vou falar sobre coisas que vocês nem imaginam. Ou imaginam?

A fofoca é uma coisa i-rre-sis-tí-veEEEllll, não é? E perigosa…
São tantas versões da mesma história e uma delas acaba dando a volta e caindo (adivinha?) no nosso ouvido. Já me incomodei e tive que aprender a abstrair. Mesmo assim posso saciar a sede de fofoca de algumas almas fuxiqueiras que (com sorte) lerão isso repassarão a versão oficial – e, não por acaso, verdadeira. Vamos lá.

Nunca fui louca pela maternidade e não sou do tipo que ama criança. Gosto de umas e de outras não, do mesmo jeito que gosto de uns adultos e de outros não. É difícil entender isso? Não, né?
Casei com 21 anos e não quis filhos no início. Com 28 anos parecia que estava na hora (a biologia, pelo menos) e logo nos primeiros meses já deu pra perceber que não seria fácil engravidar. Isso durou mais ou menos 3 anos e foi bem estressante, lógico. Cansei, me dei um tempo, voltei a tomar pílula, mudei de trabalho e fiz coisas que queria fazer antes de voltar a pensar na enorme responsabilidade que é criar outro ser humano. E este período não foi nada ruim e até decidi que filho não era pra mim.
Sem querer, aos 32, engravidei e descobri apenas quando tinha abortado. Foi um susto mas não houve drama e quase ninguém soube. O acontecido me alertou para o fato de ter algo errado com minha saúde mas, mesmo assim, não fiquei tentando loucamente engravidar, deixei rolar enquanto procurava respostas para as terríveis dores que eu tinha todos os meses.
Só aos 35 descobri que tinha endometriose em estágio avançado e fui pra cirurgia sabendo que tinha que tomar uma decisão para o tratamento pós-cirúrgico, que era engravidar ou não. Pensei muito e só dei a resposta no dia seguinte, que era: “Sim, quero engravidar”.
Desde então, e isso foi há 7 anos, o desejo de ser mãe só cresce. E, infelizmente, no meu caso engravidar não é fácil. Fiz uma inseminação e uma fertilização in vitro e nada. Por fim engravidei naturalmente, mas com 6 semanas a gravidez parou e foi a coisa mais triste da minha vida. Pirei, pirei muito. Mas, como não sou do tipo de gente que senta e chora, reorganizei minha cabeça e parei de sofrer. Hoje sou, junto com meu marido (e amigo, amor, namorado…) uma adotante esperando seu filho chegar. Seria muito bom ter sido uma grávida com todas as coisas que acontecem junto com a gravidez, mas descobri que mais que ser grávida eu quero ser mãe e a maternidade aconteceu no tempo certo dentro de mim e tomou a forma que tinha que ter, de muito amor. Simples assim.

Por mais bem intencionado que seja, as pessoas deveriam nos poupar e parar de indicar receitas infalíveis para engravidar. É até fofo mas isso é coisa que só se faz com alguma intimidade – e, mesmo assim, com o tempo, vai perdendo a graça. É um saco as comadres que deduzem que você está precisando de uma forcinha e tocam a indicar aquele chá milagroso, o médico que fez gêmeos pra uma amiga, cirurgias espirituais, gurus, simpatias…Alguém indicaria um pai de santo para surdos, mudos, cadeirantes? Não, né? E eles vivem muito bem sem as pernas, ouvidos ou olhos.
E, por Deus, não manda a gente relaxar. É como dizer que você não engravida porque não quer. Já basta toda a pressão que a gente passa durante este período. O próximo que falar isso está arriscando ouvir um palavrão. Mesmo.
E as frases do tipo?: “Adota que logo você engravida”, “Legal adotar, mas tenho certeza que você vai ter o “teu”.”
Isso é feio demais! Filho adotivo não é um passaporte, não é um trampolim, não é um objeto que você usa para conseguir o que quer. Filho adotivo é… filho. E é da gente sim.
Então, estamos conversados. Ajudar, pode. Mas a regra é clara: tem que ser com tato, com bom senso, num momento íntimo… E tem limite.
Eu já decidi que quando não estiver a fim de ouvir, vou mudar de assunto rapidinho. Olha o passarinho!

Começo com a pergunta mais delicada: “Não-grávida tem inveja de grávida?”.
E respondo por partes a pergunta mais delicada de todas. Sabe porque? Porque depende.

• Eu desejo ser grávida? Sim.
Eu desejo que só eu, exclusivamente, fique grávida? Não.
Eu tenho raiva de quem fica grávida? Não.
Eu já vi uma grávida e desejei estar grávida igualzinho ela? Ló-gi-co que SIM! kkk
Eu já achei injusto outra mulher engravidar e eu não? Sim, sim, sim!!!
Infelizmente, gente do bem tem sentimentos ruins – e se Deus quiser, passageiros.
Se este desejo durar muito vá para o quarto orar porque você não é tão legal como pensa que é.
Mas gente de bem não almeja exclusivamente para si o que é genuinamente do outro, nem deseja o mal do outro. Ponto final.
Então, se ter inveja é querer igual, eu tive. Se ter inveja é querer ter o que o outro tem e ainda querer que ele não tenha, não tive, não tenho e não terei.
• Só que as vezes, a gente acaba de menstruar, está num bode danado e não consegue pular de alegria com a gravidez alheia na hora que é anunciada. Mas passa…tudo passa, minha gente.
Se for a 3ª gravidez da Angélica, tanto faz. Se for da sua amiga querida você vai participar da alegria dela, lógico. E se for um desafeto você fica bem fula e pensa como Deus escolheu aquela bandida em vez de você (a mulher super legal – como se você fosse perfeita e as regras fossem assim). Mas também passa, principalmente se você tiver muito o que fazer – e agradecer – da vida, como eu.
É claro, que quem não engravida e vê uma mulher ter três filhos seguidos, as vezes até sem querer, as vezes fica cabreira. E a gente pensa, sim, em como deve ser bom engravidar rapidinho, sem suspense. E apenas queria que acontecesse com a gente também. E se pergunta porque acontece com todos, menos com a gente – o que já mostra como a gente pira, porque não é mesmo tão fácil engravidar e tem muitas coisas (boas e ruins) que acontecem com um e com outro não.
Vou contar um causo pra ilustrar. Eu tinha acabado de fazer a tal fertilização in vitro e tinha dado errado. Estava jogada no sofá, morrendo de tristeza, quando, de repente, o telefone toca e…Surpresa! Uma amiga me liga, feliz da vida, para contar que estava grá-vi-da e ela queria me contar de primeira mão. Ahhhhh… Neste dia eu me senti tão pouco querida por Deus e, admito, fiquei de bode com a grávida também, por mais que ela não tivesse a mínima culpa. Pensei que era crueldade demais, eu achava que não merecia aquilo tudo de uma vez. Se eu tivesse mais sorte ela poderia ter engravidado dali um um mês, quando eu estivesse melhor. A indisposição que senti por ela passou, claro. Me senti péssima por ter pensado assim. No fim, comprei um presentinho pro bebê e vivemos felizes e amigas até hoje, espero que ela nem tenha percebido, tadinha. Sobrevivi ao episódio, mas admito que até hoje acho que foi um momento de cinismo da parte de Deus…

• E tem a inveja ao contrário. Tem gente que fica feliz em ver a gente sofrer, acredita?! Gente que diz o famigerado “Coitada, tem de tudo mas não pode ter filhos, de que adianta?”. Isso é, de certa forma, um tipo de inveja. Um regozijo no fracasso alheio.
Pra estes já vou logo dizendo. Tire este sorrisinho do rosto porque… Nãnãninãnão, a vida de quem não engravida não é uma merda. É uma parte da vida bem difícil que as vezes fica pior (ou melhor) e tem até horas que a gente nem pensa nisso. A gente acorda, escova os dentes, toma banho, vai trabalhar, sente alegria, felicidade, fala mal dos outros, fala bem também, pega trânsito (as vezes de bom humor e as vezes de mal), se diverte, viaja, chora e ri… É igualzinho aos outros problemas da vida.
E, antes que eu me esqueça, faça-me o favor e vá lavar um tanque de roupa, tá?

Este capítulo é ba-fo! E complementa o anterior. Dava pra escrever um livro mas vou escolher alguns exemplos para ilustrar a danação que é lidar com seres humanos, ainda mais mulheres cheias de hormônios.

• Na época que abortei algumas mulheres ao meu redor estavam grávidas e, em meses, as crianças foram nascendo, lógico. Como lidei com isso? Foi, mais ou menos, de acordo o comportamento de cada uma delas. Com as mulheres que foram solidárias comigo também fui com elas visitando seus bebês chorões e rindo do martírio das noites sem dormir e dos peitos rachados mesmo que as vezes fosse difícil não pensar que eram meus peitos que estariam rachados naquela hora.
As que me evitaram eu evitei. As que foram más (sim, elas existem) eu afastei da minha vida com jeitinho. E as que não sabiam bem o que fazer comigo eu também fiquei sem saber o que fazer com elas.

• Eu tinha uma amiga que ficou grávida logo depois que eu tive o aborto. Fiquei sabendo que a bandida andou falando aos ventos que eu me afastei dela depois que ela teve sua bebezinha. Bom, eu me afastei dela sim mas não pelo motivo que ela imagina. O meu distanciamento tem mais a ver com a distância dela, dos abraços que eu dava em torno de seu corpo grávido e ela se encolhia, dos almoços e cafés que apenas eu convidava, das mensagens de Natal e Ano Novo ignoradas e também porque ela nem se deu ao trabalho de avisar quando sua bebê nasceu. Meu Deus, o que eu poderia ter feito de ruim? Colocado olho gordo? Matado as duas? Jura? Percebi ali a fragilidade daquele relacionamento. Foi difícil abrir mão da amizade mas ela não devia ser tão amiga assim. Já sarei, êêêêêêêhhhh ;D

• Outra boa. Eu tenho uns 40 primos, mais ou menos. Todos tiveram filhos. Eu fui a sorteada entre tantos para muitas coisas boas e também para a infertilidade. Assim é a vida.
E, me diz, qual a família que não adora uma falação? Pior que estas coisas sempre chegam no ouvido do alvo da fofoca porque este mundo é muito pequeno mesmo. Eu não sou de dar muita bola e seria este meu melhor conselho pra quem passa por isso. Mas alguns casos, de tão bizarros, ainda me surpreendem. Eis um caso dos bons!
Eu e uma prima engravidamos quase juntas e, infelizmente, as duas abortamos na mesma época também. Rolou uma solidariedade, lógico. Em pouco tempo ela engravidou novamente. No início ela me mandava ultrassons e estas coisas que mães orgulhosas fazem. Eu estava ainda muito abalada com a perda do meu bebê mas segurei a onda recebendo e respondendo estes e-mails, crendo que era apenas falta de noção e supostamente (hoje duvido muito) uma tentativa de  me alegrar, incentivar e ter esperança.
Os meses passaram. Neste mesmo período meu marido sofreu um infarto (aos 49 anos!) e quase morreu, mergulhei na recuperação pós-cirúrgica dele e minha prima deu uma sumida, cada uma com suas prioridades para cuidar. Como não éramos super chegadas e a única coisa que tínhamos em comum foi esta gravidez, interrompida em dupla, acabamos nos distanciando novamente. Nossos encontros voltariam ao patamar anterior, aos raros eventos da nossa família e encontros casuais na casa dos meus tios na frequência de uma vez a cada dois ou 3 anos, como sempre foi.
E nasceu a menina da minha prima. Atrapalhadamente não fui ao hospital, o que nesta parte da minha família é super normal, somos meio distantes mesmo. Eu até me esforço para mudar isso mas é assim. Pra meu azar também acabei faltando ao aniversário de um ano da menininha e meus irmãos também não foram. Mas sobrou pra mim.
Parece que a conclusão dela foi que eu não estive presente por não ficar confortável em face à sua felicidade maternal e completou dizendo que compreendia, afinal, perdemos o bebê juntas e tal. Sim, pior é que ela ainda fez a compreensiva.
Comentário infeliz, egocêntrico e maldoso. Quem diz uma coisa dessas, no mínimo se baseia em sua própria maneira de agir. Quem diz isso é mau. Quem diz isso quer fingir que é bom.
Já pensou se eu fosse evitar todas as mulheres que estiveram grávidas quando eu queria estar ou quando minha gravidez foi interrompida e elas tiveram seus bebês? Eu perdi as contas de quantas visitas de nascimento e festas de aniversário eu fui no último ano ou dois (meu filho teria 2 anos agora…). Sinceramente, não me lembro mais porque não fui ao aniversário da filha desta prima, da mesma maneira que não lembro o motivo pelo qual dei alguns inevitáveis furos em alguns nascimentos e aniversários. As vezes não dá, simples assim. É muita coisa pra fazer e não dá pra agradar a todos. Com o tempo escasso a gente dá prioridade as pessoas mais próximas, presentes e que fazem diferença na nossa vida. Certamente ela não devia estar no topo desta lista, não é?
Os seres humanos ainda conseguem me surpreender, ainda mais quando é gente do próprio sangue. Me senti uma palhaça por ter sentido culpa de não ter tido tempo de ir ao hospital entregar o vestido fofo – que comprei com semanas de antecedência ao nascimento da menina, e que acabei dando para outro bebê depois de imaginar que não serviria mais.
Essa daí, com certeza, continuará restrita aos esporádicos eventos familiares, quando muito. Se existia algum desejo de ampliar a intimidade e a presença dela em minha vida, morreu aí.
Tudo que me falta em fertilidade tenho de sobra em culhão. E tenho dito.

Tem um tipo de amor que eu não dispenso. É o amor feminino, de amigas, de irmãs, de primas, de tias… Este amor nunca é demais, uso sem moderação.

• Eu tenho uma comadre. Estivemos grávidas juntas quando eu tive o primeiro aborto. Foi uma pena mesmo, teria sido bom criar nosso filhos juntos. Ela faz parte da minha vida e este seu filhinho é uma das minhas crianças preferidas. Esta amiga é daquelas que reza por mim quando passo por aflições, ela me ofereceu suas economias para fazer (mais) tratamentos para engravidar, se eu precisasse. E ela meu deu seu segundo filho como afilhado mesmo sabendo que eu não posso batizá-lo por não ser católica. E quando fiquei grávida pela segunda vez, disse que tinha guardado (por anos e em segredo) todas as melhores roupinhas dos seus filhinhos para mim e torcia pra eu não ser fresca, e que fosse um menino. Óim.

• Eu tenho primas, muitas.
Tem uma que é uma pessoa de oração dedicada. Eu sei que estou em suas orações. Ela ora pelo meu bebê, natural ou adotado. Ela sempre esteve presente na minha vida e eu na dela. E espero que seja assim pra sempre.
Tenho outras duas primas que são irmãs. Crescemos juntas. A gente tomava Leite Moça na lata, uma delas cortou minha trança pela metade quando eu era criança, outra me acompanhava nas noites insones de alergia. Fizemos tantas artes juntas…
Há alguns anos uma delas me ofereceu sua barriga emprestada! Era pra eu aproveitar antes antes dela ficar velha demais. Afinal, a gravidez dela é ótima, nem enjôos tem. Ela faria isso com o maior prazer. Não é de chorar de tão bonito? Tem gente que é assim, generosa. A segunda irmã teve um bebê depois de ter dois filhos grandes. Foi um acidente daqueles! Falamos tanto ao telefone, ela estava desesperada por já ter um menino que necessita de cuidados especialíssimos. E nasceu o bebê mais fofo do mundo. Sempre falo pra ela que vou roubá-lo porque ela já tem três. Ela ri, não vê maldade. E eu falo sem maldade.

• Eu tenho três irmãs. Uma tem um filho e não quer sonhar com outro, outra também tem um e engravidou a duras penas. E tem a parideira, mãe de 3 filhos. Ela sempre foi doida pra me dar a tal barriga emprestada, igualzinho a minha prima generosa. Como ela me encheu por conta disso…

No caso da barriga de aluguel, admito que quase aceitei a ajuda delas mas penso que não poderia colocar ninguém numa situação dessas, acho que seria muito sofrimento para quem parisse, por mais que elas digam que estão preparadas. Amo estas mulheres e as admiro por isso, eu não teria esta coragem que elas tiveram.

Na nossa vida rolam muitas histórias, boas e ruins. E, para o bem o para o mal, este mundo é feito de gente, de amor, maldade, hormônios femininos, tristeza e felicidade.
Não conceber pode ser uma coisa angustiante. Por isso, podemos chorar quando for necessário mas acima de tudo vai ter uma hora que o único remédio será a nossa própria força. E se não podemos garantir o DNA perpetuado no sangue dos nossos filhos ainda podemos ter outras missões e alegrias. Escolha as suas para não desperdiçar a vida.
E escolhi ter filhos do coração que, com sorte, irão prosseguir com minha melhor herança: a fé, o amor, os ensinamentos, as receitas de família e algumas manias (as boas, espero).
A gente não pode garantir nada disso com filhos biológicos nem com os adotivos.
Mas é o que peço. Amém.