Posts tagged ‘Marrocos’

26/09/2010

52 :: PASSAR A NOITE EM UMA HOSPEDAGEM…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TÍPICA DO MARROCOS

Nice to meet you to, Marikà. Respondi à mocinha que nos recebeu no Riad Tizwa em Fes.
O que eu vi, no meio da luz envolvente que saía por trás dela, me fez esquecer toda a perrengue que foi chegar lá. Era um estreito corredor que nos levaria para um mundo paralelo.

Era tudo tão cheiroso, a iluminação era quente, o lugar bem decorado e silencioso. Enfim, o Marrocos dos sonhos, igualzinho ao que tinha visto em um livro de hospedagens marroquinas chiques.

Marikà, me oferece um chá de hortelã. Aceito, lógico.
Meu marido, no desespero de descansar, me manda um olhar fulminante quase dizendo: “Pelamordedeus mulé, depois de dois dias vagando, sem banho, você ainda aceita um chá com fru-frus? Bando e cama, agora!”
Gente, o que eu posso fazer? Àquela hora a moça tão solícita com o chá pronto, maior clima, o pátio iluminado, cheio de velinhas, cheiroso. Eu tinha que aceitar.
Pedi desculpas, pelo meu estado de higiene pessoal, para o aconchegante sofá e me sentei na beiradinha para tomar o chá pelando, naqueles copinhos fofos.

Precisamos ligar em casa para tranquilizar a família, feito. Conhecemos Samyr, um simpático ajudante da casa. “Do you speak english Samyr?” E ele responde com as duas mãos no peito, em sinal de reverência: “Yes!”
Bom, muito bom.

Nossas malas sumiram, mágica. E o que achamos que era uma porta para outra sala era na verdade nosso quarto, com uma grande porta de duas folhas que dava direto para o centro da casa, o pátio. Fiquei meio deslumbrada, admito. Nós dois ficamos.
Assim que a porta fechou a gente perdeu a compostura de tanto rir e dizer: “Que legal! Que legaaaaal.”

Era um enorme (e-nor-me) quarto decorando lindamente no estilo marroquino com toques de modernidade. Atrás da cama (fofa, com uma linda colcha acetinada verde musgo) tinha uma espécie de biombo onde as malas foram acomodadas.
Quartão. Tinha poltrona, mesinha…

…roupões pendurados, aqueles sapatos marroquinos estilo Aladin. Tudo super arrumado.

Tomamos o banho dos banhos (pra ser perfeito só faltava uma banheira). Ainda liguei meu computador – wi-fi bombando! – e adormeci com parte das luzes acesas (eram várias fontes de luz) só para o caso de acordar durante a noite e resolver admirar o teto – e fiz isso mesmo, loucura.

Juro, me senti a Jade da antiga (antiquíssima) novela. E dá-lhe “O Clone”.

Anúncios
24/09/2010

51 :: CHEGAR EM FES…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…TARDE DA NOITE (DE ÔNIBUS, SEM NINGUÉM PARA TE BUSCAR, ETC, ETC, ETC…)

Enfim, chegamos.
Foi sem querer. Chegar em Fes quase meia noite e sem nenhum apoio para o traslado não estava no programa. A gente pensava em um pouco de estrutura na nossa estreia no mundo islâmico. Mas 45 horas após o horário programado de chegada, perdemos um pouco o controle, o que fazer neste caso?

Bom, fizemos o que estava ao nosso alcance.

Depois de ligar para o riad [riad é um tipo de hospedagem marroquina, compare os preços de se hospedar num riad ou em um hotel] descobrimos que os donos não estavam lá para reorganizar nossa chegada – nunca estiveram em Fes mas sim em Londres, onde moravam e nunca comentaram nada.
Meu marido improvisou. Me colocou de castigo num cantinho, sentada em cima das malas e saiu com o endereço na mão a procura de um táxi. Eu fiquei lá quietinha – vestindo regata e uns jeans que estava caindo de tão largo, figurino um tanto deslocado para um país islâmico – e sem menor coragem de colocar um casaquinho em cima do meu corpo suado.
Fui examinada por todos os pares de olhos que passaram, sensação estranha.

Não sei quanto tempo passou, mas demorou. Eu comecei a me preocupar com o destino do meu marido.
Imaginei bandidos sequestradores e nele esquartejado em algum canto sujo e escuro. A coisa mais leve que pensei foi num roubo seguido de surra. Que agonia.

A RUA DO NOSSO RIAD E SUA PORTA

Depois de um tempão ele aparece super confiante, acompanhado de um moço.
Sem dar muitas explicações diz: “Pronto, resolvi tudo. Este cara me emprestou uma moeda, fiz uma ligação de uma cabine, peguei algumas indicações, ele tem um táxi, vai nos levar lá.”
Certo, não tive forças para resistir, não tinha uma opção melhor mesmo. Sem contar que eles já estavam melhores amigos, quase separados ao nascer. E lá fomos nós pela noite de Fes, pagando 150 dirhams, cerca de € 15 (que depois soubemos ser um absurdo de caro) para um desconhecido, aparentemente suspeito, nos levar sabe Deus para onde.

Saímos da cidade nova e entramos na medina que por acaso era o lugar que eu fiz questão de ficar hospedada, para sentir mais o clima do lugar blá, blá, blá.
Para a gente se perder foi coisa de cinco minutos, eu passaria a eternidade vagando por aquelas nove mil e tantas ruas (como eles gostam de enfatizar repetidamente) se ele me largasse lá sem um mapa – e com um mapa também. Quando a coisa estava feia e eu estava começando a pensar que tudo aquilo era um castigo por criticar turismo na Favela da Rocinha o carinha para o carro, solta um “wait, please” e larga a gente sozinho.
Foi aí que comecei a entregar minha alma para Deus e pedir perdão por todos os pecados, maledicências, pelo cinismo, pelas vezes em que peguei o pedaço de bolo maior deixando menor para meu marido que ama doces.

UM CLOSE

Mas olha que coisa fofa o rapazinho marroquino de inglês britânico. Ele tinha descido pra achar uma lan house (engraçado uma lan house ali) para acertar direito a localização do riad. Sensacional, muito moderno isso.
E depois ficamos sabendo que, de verdade, não corremos risco nenhum ali. Não tem nada a ver com o perigo do Brasil, a coisa é bem pacífica.

Depois de umas erradas aqui e ali – e de inclusive bater numas duas portas erradas – ele bateu na porta que eu torcia para ser a minha desde a hora que entramos na rua.
A porta se abre, aparece uma moça baixinha e diz, ao mesmo tempo em que um cheiro gostoso e uma luz quente vazavam do ambiente aconchegante logo atrás dela: “Good night, my name is…Marikà, nice to meet you.”

ARE BABA! NÃO, ISSO DE OUTRA NOVELA, HEHEHE…

Enfim, o Marrocos versão “O Clone” (sim, a novela da Globo) começava ali.

14/06/2010

35 :: DEIXAR DE VISITAR…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…CASABLANCA

Um vídeo que não tem a ver com Casablanca (não, eu não tenho fotos de Casablanca. Nenhuminha :()

Eu “pulei” Casablanca quando fui pro Marrocos. Era fim de viagem, nosso voo saía de lá e estávamos em Marrakesh. Simples, tem um trem de Marrakesh para Casablanca e a vinda de trem de Fès para Marrakesh tinha sido bem boa – se for possível excluir a falta do prometido (e pago) ar condicionado da 1ª classe.

Pensando agora até parece simples mas no fim de uma viagem de mais de 20 dias, com uma mala cada um – mais uma estepe cheia de tranqueiras compradas em souks – isso começa a complicar.  A falta de escadas rolantes, informações seguras de ondem baldear e de alguém que fale inglês, começa a pesar. A troca de trens no caminho, a dúvida sobre qual estação de Casablanca desembarcar (tem duas, seja lá o que isso quer dizer), o banheiro sujo do trem e o piriri que ainda não acabou totalmente podem te fazer chegar a um tipo de histeria boba e feliz, nem sei porque feliz mas eu estava exatamente assim quando vi a feia cena de Casablanca noturna passando pela janela do nosso trem de 2ª classe (o melhor que conseguimos)  e comecei a cantar coisas irritantes pro meu marido no ritmo de As time Goes by.

“O trem está passando, a sujeira tá colando, os “cara” estão olhando…
E o nosso fim de linha amor…estamos ferrados siiiimmm”.
(E ele bufava)

“Você me avisou, Marrocos é primeiro, mas eu não quis assim…
Eu quis Espanha antes amor e agora estamos cansados demais, pra curtir”
(Uma olhada feia dele pra mim)

“A cidade é muito feia, a gente já sabia, mas eu não quis sabeeeer.
Eu quero Casablanca o filme amor, eu quero agora sim…”

“Fui até ali, fazer o meu xixi mas não tive coragem.
O banheiro está transbordando amor…acho que desisti…”

“O xixi está saindo, o banheiro está ali, mas tenho medo dele
Não vai dar pra evitar amor, porque agora tenho um piriri…”

“Você disse Califórnia, fui que inventei, estas férias das arábias…
Você tinha razão amor…a Golden Gate deve ser mais linda sim, e laranja!
(Nesta parte achei que ele iria me socar)

E Casablanca passava, a uns 80 por hora no vidro embaçado do trem, triste, escura, quente e desconfortável, como se nunca tivéssemos nos programado para estar ali.
E assim fomos, eu e meu amor (irritado) a som da clássica trilha do filme (numa versão própria e porca) rumo ao bizarro aeroporto de Casablanca (onde nos perdemos um pouquinho e ninguém falava inglês), pegar uma van (mais bizarra ainda), para um hotel (caro demais mas o melhor que conseguimos porque tinha uma convenção não sei do que nas redondezas), lotado de pessoas do norte da África vestidas de um modo muito, muito diferente (isso foi beeem legal), com tocos de cigarro debaixo da cama (nojo), com banheiro novo mas encardido com rejuntes dos azulejos mais encardidos ainda (mais nojo), de onde só saímos no outro dia de tarde pra pegar nosso voo (porque o cara queria nos cobrar 150 euros pra nos levar pra ver a maior mesquita do mundo e algum outro mercado).

Casablanca, eu posso viver sem te conhecer, obrigada.

03/06/2010

28 :: SE MATAR PRA TRAZER UMA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…LUMINÁRIA MARROQUINA, DE MARRAKESH

Sabe quando você vê uma coisa numa viagem, pensa em comprar mas tem certeza que ela não vai chegar inteira em casa? Foi este o caso.
A primeira coisa marroquina (de verdade, como eu imaginava) que vi nesta viagem, foram os reflexos de uma luminária parecida com esta na parede do Riad em Fès, um bálsamo para meu corpo moído e meus olhos cansados. Eu juro, lembro do cheiro que acompanhou este momento mágico.

Fiquei com aquilo na cabeça e quando vi uma quase igual (mas enorme) em Marrakesh pensei: impossível.
Não me contive e acabei me dando esta de presente, menorzinha e mais possível de trazer. Depois de hooooras de negociações, saímos de lá com ela e mais um monte de tranqueiras.
Foi meio complicado trazer esta delicadeza, cheia de rendinhas de metal, numa mala lotada de roupa suja – ela mesma lotada de cuecas e camisetas suadas pra evitar um amassado mais grave.

Chegou em casa quase inteira, dei um jeito nisso e tratei de mandar fazer um postinho pra pendurar e fiquei bem feliz com o resultado. Acho até que preciso escrever sobre minha casa estar parecendo um certo lugar em Fès…

16/05/2010

20 :: FAZER COMPARAÇÕES

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…ENTRE CIDADES E MULHERES

Gostar ou não gostar de um lugar é como se apaixonar por uma pessoa. As vezes, sem nenhum motivo especial pega. Em outras tem tudo pra dar certo, mas não vai pra frente.
Estive pensando nisso, em como as cidades parecem pessoas – mais especificamente com mulheres – com sua vida própria, com suas tensões, interesses, humores, charme e beleza.

ROMA
É uma senhora, das chiques.
Mas não se iluda, esta senhora pode pirar (com a ajudinha de algumas taças de vinho, lógico). Ela não chega a se descontrolar totalmente e nunca perde o charme, qualidade que lhe é nata.
É daquelas senhoras que envelhecem bem, com uns toques muito sutis aqui e ali, só pra dar uma ajudinha para o que já é bonito. O grande cuidado é não deixar claro que houve uma intervenção, afinal, ela acredita que deve-se envelhecer com muita dignidade.
Ela se veste bem, a danada,  e mesmo sendo uma senhora ainda tem aquela cruzada de perna estilo Sophia Loren, só pra não perder o encanto e se lembrar que é (e sempre será) uma bela Donna.

BARCELONA
Uma mulher moderna, não muito velha – nem muito nova.
Ela usa óculos de aro grosso, quadrado e escuro. É meio petista, sabe? Seu único defeito. Tem lá seus ideais e faz o tipo meio anti social em alguns meios (característica polêmica esta).
Talvez você não se apaixone por ela de cara. Ela não chama a atenção pela beleza mas quanto mais você a conhecer mais vai se encantar. Três dias intensos serão o suficiente para nascer uma história de amor ou pelo menos uma paixão. É que esta é uma daquelas inteligentes – e interessantes.
Ela sabe das coisas, se veste de um modo pouco convencional mas só o que lhe cai bem (e mesmo se não lhe caísse não liga muito para a opinião alheia) só não abre mão do seu estilo.
E vou logo avisando, ela pode ser um pouco agressiva a primeira vista, a intenção é mesmo espantar alguns indesejáveis. Mas é uma mulher do mundo e se você se der ao trabalho vai perceber que pode ser bem simpática.
Uma informação muito importante: ela não dorme.

PARIS
Esta mulher é top, top model. Magérrima. Não é falta de confiança (longe disso!) mas ela faz questão de estar dentro de alguns padrões.
É bem possível que você se apaixone de cara pela sua beleza e seus clássicos olhos azuis. Ninguém é perfeito, o defeito dela é ser um pouco superficial mas nem faz questão de ser diferente disso. É bem feliz com o que tem e não inveja nenhum atributo que outra possa ter. Exibida, só pode se dar ao luxo de fazer isso porque é bonita.

MARRAKESH
Esta mulher é bem complicada. Só dá pra conhecê-la se for aplicado. Por baixo de panos e panos existe uma mulher extremamente interessante. Aparentemente é um pouco recatada e tem uma inclinação ao puritanismo, mas é só fachada. Não espere dela grandes noitadas, não é dada a isso por cuidar muito bem de sua imagem.
Aposte em seus temperos picantes, se não for acostumado cuidado, pode até te fazer mal. Mas depois que se acostuma pode virar um vício e um dia você pode se pegar suspirando de saudades dela.

SÃO PAULO
É uma mulher louca, de múltiplas personalidades e bipolar. Uma verdadeira perdição.
Ela muda de cara toda vez que precisa e isso faz dela uma pessoa pouco confiável. Pode ser patricinha, suburbana, perua, sacoleira, chique e barraqueira! Ela só se preocupa com uma coisa: estar na moda. Pronto, São Paulo é uma drag queen!

09/05/2010

18 :: FAZER UMA EXCURSÃO PRO SAARA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…AS CEGAS

Foi em uma viagem ao Marrocos…

Não sei quanto tempo fazia que não entrava num esquema de excursão. As vezes é necessário, como neste caso, mas admito que não gosto muito, acaba toda a autonomia. Mas a gente não teve peito de ir de carro até Merzouga (a cidade base) e depois tocar pro Saara. Não sem falar árabe nem francês…

Chegamos cedo, todo mundo com cara de sono na porta da “operadora de turismo” que iria nos levar ao deserto. Esperamos. Informação zero.
Daí um cara grita: “Three days, two nights!”. Opa, deve ser com a gente! Jogamos a mochila numa van quase branquinha, quase nova e quase com ar-condicinado.

Entramos. Ninguém se apresentou, nem o motorista. E a viagem começou ali, sem nenhuma palavra.
Depois de horas sacamos que o motorista era motorista e guia, sendo que a segunda ocupação ele não exerceu em nenhum momento. O infeliz só ia parando e mandando a gente descer quando ele queria.
Com jeito e aos poucos fomos conhecendo o grupo, que não podemos chamar exatamente de animado.

Éramos nós, um casal catalão que depois ficou simpático, outro casal japonês também simpático, um outro de Cingapura (podemos chamar de Cingapurenses, Cingapurianos? Esquisitos, pronto! Pelo menos o homem era), um menino brasileiro (médico recém-formado que estava com infecção intestinal e mau humor), uma japonesa com o cabelo pintado de loiro milho, uma coreana super-hiper-mega-vaidosa-pati com a digital que no clic soltava um latido (?!) e um israelense tipão com cara de professor-inteligente de universidade.
Vamos descomplicar como os marroquinos: chamar as pessoas pelo nome do seu país.

Achei muito azar estar numa excursão cheia de orientais de cabelos lisos sabendo que iríamos dormir e acordar no deserto sem água para baixar minha juba. Mas estas coisas a gente não escolhe. Ou escolhe?

Uns 40 minutos de perifa, uns povoados e logo a gente entra nas montanhas Atlas.

Ninguém disse nada mas eu sabia, a gente estava lá! Que Deus nos guarde das curvas e precipícios, dos guard-rails recém destruídos por algum acidente e das ultrapassagens muito loucas do motorista-guia. Mas ele bem que parecia que sabia o que estava fazendo e a estrada era boa de verdade, mas as curvas eram tantas que tinha hora que quase dava pra ver o nosso próprio rabo pela janela. E um hit marroquino rolava na vitrola…(vitrola não mas era toca fitas!)

A buzina da van era um capítulo a parte, era uma musiquinha parecida com aquelas de amolador de faca, e soava a cada ultrapassagem, fosse ela sobre um carro, bicicleta ou pedestre (engraçado, todo mundo faz isso lá).

E a gente começava a se sentir como naquele filme…como era mesmo o nome? Ah, Babel!

Deve ser isso que as revistas de viagem dizem quando escrevem “visão de perder o fôlego”.

Mas a van quase não parava pra apreciar nada 😦
A gente não sabia, mas tinha um programa apertado atravessando as cidades desérticas Saarianas. Detalhe: sem guia, sem informação, sem falar o idioma, sem quase nada. Apenas a vontade de viver e fazer 1000 COISAS ANTES DE MORRER, torcendo pra não ser exatamente ali…

24/04/2010

10 :: A EXPERIÊNCIA DE UM HAMMAM…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…OU O BANHO MAIS BEM TOMADO DO MUNDO

Hammam, este nome sempre me deixou meio excitada.

Esta palavrinha me levava à ambientes mágicos, com teto em forma de cúpula, com furinhos em formato de estrelas dando vista diretamente pra um céu mais estrelado ainda…

Crédito: Mossaiq/Guillén Pérez, Flickr

Crédito: Carolina Naftali/Flickr

…grandes balcões de mármore quente e banho coletivo lógico.

 Crédito: la_imagen/Dietmar, Flickr

Tudo isso embalado por uma trilha sonora das arábias.

Este seria meu The Truman show.
Eu só tinha um micro medinho do lance do choque térmico (o banho quente e frio, frio e quente, aparentemente uma coisa tradicional) e de cair num Hamam nada “de família”, mas não parecia tão fácil evitar, e não é mesmo.

O mais perto que tinha chegado foi na Andaluzia mas uma gripe muito forte adiou os planos. Mas, uma vez no Marrocos, porque não experimentar?  Em Marrakesh fiquei sapeando uns dias, uns panfletos aqui, outro ali…medo. Tudo parecia meio suspeito. Mas finalmente, depois de um banho de chuva fenomenal em um final de tarde, resolvi aceitar a sugestão do Antoine da Riad Aguerzame e fazer um Hamam num lugar indicado por ele, o Riad 107 que fica no número (adivinha?) 107 da rua.

Ele me levou até lá, já que depois das nove da noite não pega muito bem uma mulher sair sozinha na rua. Nem fiquei surpresa quando a porta (numa rua feinha que dói) se abriu e apareceu um pátio bonito, meio moderno mas com inspiração árabe, com um tanque para banhos. Só achei muito…como vou dizer? Muito Spa. Lounge demais pra mim.

Vou pegar umas fotos do site deles, não fotografei.

Conversei um pouco com a dona do lugar, que logo me mandou para um quarto lindo, trocar minha roupa pelo biquini.

De lá fui levada pro lugar do banho, privado (?).

Era uma sala pequena, com paredes, balcões e bancos de cimento queimado branco, muito bonito mas nem de longe se parecia com o Hamam tradicional que sonhei. Desapeguei e resolvi curtir a coisa, que aliás era muito bem paga por aquelas bandas, o equivalente a 50 euros (!).

A saga, propriamente dita, começa mesmo quando chega a mulher que vai me “dar” o banho. É isso. Sabe que eu nunca tinha pensado neste ponto? Alguém vai te dar um banho e desde uns 5 anos de idade que isso não acontecia, a gente perde o costume não é?
E a mulher (vestida de bermuda ciclista e camiseta) chega animada, dando um banho pra valer, me ensaboando inteira. Éramos nós duas,  naquele calor do caramba, suando hor-ro-res! Foi nesta parte que comecei a entrar em conflito sobre a situação social dela e que provavelmente ela ganhava muito mal pra me dar aquele banho de madame. Me senti estranha, principalmente nas horas que ela reclamava do calor absurdo e de como aquele banheiro não tem ventilação.

Mas ela parece ter um certo gosto naquilo. Ela parece gostar de esfregar. É sabão, esponja, esfrega, esfrega, esfrega.
Quando você já se sente a pessoa mais limpinha do mundo pra ela a coisa só está começando e vai ficando cada vez mais constrangedora e dolorosa.
Depois a mulher saca de um pote com uma pasta arenosa e manda ver numa esfoliação hardcore – eu já disse que até aí a parte de cima do biquini já tinha ido? Muito a contra gosto, mas foi.
Quando sua pele está toda vermelha e fininha como papel ela vem e…adivinha? Te suja (ã?) com um banho de lama, lambuzando cada centímetro quadrado de pele exposta. E eu me agarrando ferozmente a minha última peça de roupa, a calcinha do biquini. Eu segurava e ela puxava, dizendo em “mimiquês” que assim não dava, que um bom banho só pode acontecer pelada mesmo. Me despedi de minha calcinha me sentindo a pessoinha mais vulnerável do globo terrestre e me entreguei pro banho de lama.
Mas ela não estava feliz. Aumentou a temperatura e me mandou deitar na laje quente e esperar um pouco.
Nem o vapor úmido foi capaz de evitar que aquela argila toda começasse a retrair e repuxar minha pele e me fazer pensar o que seria de mim se ela me esquece lá.
Mas ela não esqueceu e na volta veio com uma esponja mais light, pra ela lógico, porque pra minha pele aquilo era o máximo das agressões. Mas admito que estava relaxada…ou quase isso.
Banho de novo, enxagua, esfrega, lava mais uma vez (com um sabão ambar, muito comum no Marrocos que me lembra alguma coisa da infância mas não consigo me lembrar o que e acabei esquecendo de perguntar pra alguém).
Enfim veio o enxague com algo cheiroso, macio, morno e calmante.
Ela termina enxaguando minhas roupas e me entregando junto com os objetos de tortura, um souvenir (eu falei que ela até passou uma pedra nos meus pés? Ficou parecendo pé de recém nascido, juro. Tenho a pedra, feita de tijolo, pra provar)

Enquanto ela me enfia num roupão fofo pergunto do banho frio (aquele que deveria ser no tanque, no centro do jardim) e ela responde com um ar de malícia (tudo isso em mímica): “Não, isso poderia te deixar doente ou te matar!”

Então tá.

E minha experiência termina com um chá, almofadas e uma massagem muito boa com óleo de laranja, morno e refrescante ao mesmo tempo. Tudo empacotado com laços de cetim cor de rosa de uma música em estilo árabe.

Mais umas fotinhos do site.

Antes de sair dei tchau pra Donaesfregadeiracomgosto (quase não a reconheci vestida a la Marrocos, com lenço e tudo) e voltei pra jantar com Antoine e meu marido, feliz, flanando pelos becos vazios de Marrakesh…

…me sentindo limpa, leve e nascida de novo (e escorregando dentro da roupa e chinelos de tão lisinha que fiquei).

Não foi o que eu esperava mas foi uma experiência para se ter ANTES DE MORRER.