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22/05/2011

80 :: VENCER UMA FOBIA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NEM QUE SEJA AOS 40 ANOS – NUNCA É TARDE

Medo de aranha, barata, rato. Medos inexplicáveis.

Como uma pessoa pode ter medo de uma coisa pequena, menor (muito menor) que um ser humano? Ou de algo que não representa um risco real? Isso se chama FOBIA. Em algum momento da sua infância, ou quem sabe no útero ainda, este medo foi desencadeado e pronto, tá feito.

Eu sempre fui uma cagona. Tinha tanto medo daqueles reguinhos de água que meu pai sempre me pegava no colo para dar um pulinho. Tinha medo de altura, subia nas árvores e não dava conta de descer.
E sempre morri de medo de aranha, o que está sendo vencido aos poucos; afinal, acabei vindo morar no lugar de maior concentração de aracnídeos do Brasil, a Serra do Japi. Aqui também é o lugar de maior incidência de queda de raios do MUNDO. Acabei descobrindo isso sem querer. (Pense: o Brasil é o país com maior atividade elétrica do mundo e a Serra do Japi a maior do Brasil. É só raciocinar… Ainda bem que não tenho tanto medo de raios assim).

Mas o que quero falar aqui é de um medo estúpido: medo de voar. Tem coisa mais caipira? Não, né? Pois eu sofri por conta disso por anos e dedico meu octogésimo (8% da minha lista) à vitória de não mais sofrer deste mal.

{montras}

Minhas histórias de avião são óóóótimas. Mesmo no auge da fobia eu ria de mim mesma depois que descia do avião.
Eu entrava na sala de embarque olhando para a cara das pessoas e pensando como elas ficariam depois de mortas, ou que tipo de reação elas teriam antes da queda, se a gente iria desmaiar antes de cair ou se ia ser, assim, a seco mesmo.
Como não andei de avião na infância fui adiando este momento até onde deu. Fiz uma viagem rodoviária Aracaju-São Paulo sozinha, as 17 anos. Já tinha ido de ônibus, com umas amigas, e o combinado era voltar de avião, sozinha. Pois eu voltei de ônibus, não avisei minha mãe que estava voltando e cheguei em casa de surpresa. Não precisa dizer que esta viagem fui uó! Chuva o tempo todo, tigrões caindo matando na menininha sozinha. Um perigo.

{noites...}

Meu primeiro voo foi com meu marido, duas amigas e minha irmã pequena para a Flórida – e foi péssimo. Voo horroroso, um dos piores da minha vida. Tempestades, raios, muitas turbulências e um ciclone passando sobre o Caribe não nos ajudou muito. Até os bagageiros abriram com as chacoalhadas. Muito medo.
Na volta, no voo curto entre Orlando e Miami houve um incidente. Eu estava comendo meu Oreo e um yogurte de morango quando soou uma sirene forte e o filme saiu do ar. Estressei na hora. Meus queridos companheiros de viagem riram. Eu agarrei na minha Bíblia. Olha a cena…
Dali a pouco, com a maior calma do mundo, os comissários pediram para colocarmos as poltronas em posição vertical. Minha melhor amiga me olha e diz que foi bom me conhecer e caiu em uma risada histérica. Minha irmãzinha de 10 anos, super calma, já tinha dito que tinha um mau pressentimento daquele voo. E pensei que tristeza meus pais perderem duas filhas ao mesmo tempo, a primogênita e a caçula… Dali pra frente não lembro de mais nada. Saí do ar. Me contaram que uma das turbinas pifou, o avião deu uma baixada brusca, um som abafado parecido com uma explosão… Mas pousou bonitinho.
Tomei 2 Dramins para encarar o outro voo, igualmente horroroso com chuva, mas os comprimidos só me fizeram delirar e ver coisas que nem estavam acontecendo. Cheguei em São Paulo doente.

{tem coisas que só uma janela de avião pode te dar...}

Ouvir a turbina do avião sempre foi o meu horror. Era sentar na poltrona e começar a chorar baixinho e dizer a clássica frase: “O que eu estou fazendo aquiii?” E não adianta dizer que o avião é o meio de transporte mais seguro e blá, blá, blá. Eu concordava, mas o medo era maior. Cheguei a extremo de achar que se eu andasse durante o voo, o avião poderia se desestabilizar e virar de lado!!! Absurdo, estou rindo sozinha escrevendo tudo isso.

{waw!}

Um dia, uma amiga me disse que eu estava sofrendo à toa e que era pra pedir um remedinho pro meu médico.
O primeiro me indicou 3 gotas de Rivotril, foi ótimo mas só resolveu na primeira viagem. Depois fui aumentando as gotinhas para 7, 9 e parei no 15 com medo de entrar em coma dentro do avião. Uma vez, em um avião novinho da Royal Air Maroc, quase infartei achando que as tvs baixando eram as máscaras de oxigênio – neste caso eu mereço um desconto, se eles cuidam da manutenção do avião do mesmo jeito que cuidam do país…sei não.
O segundo médico passou Lexotan. Tomava 2 e não apagava.
Enfim o terceiro me indicou Frontal. Sensacional. Tenho que admitir que ele dava uma leve amnésia mas eu não ficava grogue, só dormia, se fosse voo noturno. Pulava do avião novinha e feliz da vida. Mas ainda tinha um inconveniente, ficava sem condições de cuidar 100% bem dos meus pertences. Meu marido se encarregava disso.

Nunca tinha voado sozinha e isso era uma limitação, sem dúvida. Voar, só com companhia? Puxa…odeio dependência.

{usei esta foto para dizer que um novo tempo nasceu para mim...entendeu?}

Psicoterapia – e alguns miligramas de remedinhos diários, admito. Esta foi uma das soluções. Não fui lá para isso mas acabei descobrindo que o medo de avião não era medo de avião mas sim uma necessidade de controlar tudo. E depois que meu marido infartou e foi diagnosticado errado por 2 anos seguidos e no fim foi ter uma parada cardíaca bem na frente de uma das melhores equipes cardiológicas do Brasil saquei que não é a gente que controla, nadinha. As coisas acontecem e ponto.

Meu primeiro voo quase sadio foi Caracas-Los Roques, num bimotor de 8 lugares, vai entender…

{azul escuro, Caracas; azul claro Los Roques}

{dando os primeiros passos para a vida adulta}

O primeiro sadio mesmo foi para o Rio, em outubro de 2010. Percebi que estava dando…
E aconteceu algo impensável! Fui para Curitiba, sozinha. Tinha que ir, não tinha jeito. Mas fui segurando, bem forte, um comprimido de Frontal. Mas meu marido me ajudou no check-in porque eu estava meio dispersa, ansiosa demais. Na volta já foi melhor, peguei o táxi, entrei no aeroporto, fiz check-in, comprei umas coisinhas em uma loja muito simpática, liguei para meu marido da sala de embarque e voei com meu comprimido na sacolinha das compras. Na volta, meu marido ficou me vendo retirar minha bagagem da esteira e quando saí no desembarque me abraçou e me deu boas vindas ao mundo adulto ;D

Semana passada dei meu passo decisivo. Tive que voar sozinha, de novo. Deixei o ansiolítico em casa, entrei na sala de embarque como gente grande e fui lendo um livro da Danuza Leão (oi?) e dando umas cochiladas. A volta foi de dia, melhor ainda porque não gosto de voar a noite. Fiz meu check-in eletrônico e me senti tão, tão, tão…adulta! A pessoa mais civilizada, moderna e independente do mundo inteiro.

Quem nunca passou por isso nunca vai entender mas quem já passou sabe muito bem do que estou falando.
Que venham muitos voos, muitas viagens lindas e que sejam, em sua maioria, acompanhadas do meu melhor companheiro de viagens, meu marido, que por tantos anos me cedeu seu braço, em cima do apoio da poltrona do avião, para eu fincar as unhas.
Se cair, caiu.

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