03/11/2012

87 :: Dizer algumas coisas…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…que ninguém diz sobre a infertilidade

Este post também poderia se chamar “Como manter a sanidade mental
quando você esqueceu de passar na fila da fertilidade antes de nascer”.

Veja se te soa familiar?
– Tem namorado? Não? Ah, tá.
– Tem? Hum, que bom. Quando casa?
– Casou? Parabéns! E quando chega o herdeiro?
– Tem filho? Que legal. Não vai ficar com um só, né? Quem tem um não tem nenhum…

Pare na parte do “tem filho?” e fica repetindo anos e anos. Rá, esta sou eu! Esta ladainha faz parte da vida de quem não quer ou não consegue engravidar, da mesma maneira que outras pessoas passam por outras mazelas quando as coisas fogem um pouco dos padrões, sejam eles quais forem.
Eu tenho 42 anos, não tenho filhos e vou falar sobre coisas que vocês nem imaginam. Ou imaginam?

A fofoca é uma coisa i-rre-sis-tí-veEEEllll, não é? E perigosa…
São tantas versões da mesma história e uma delas acaba dando a volta e caindo (adivinha?) no nosso ouvido. Já me incomodei e tive que aprender a abstrair. Mesmo assim posso saciar a sede de fofoca de algumas almas fuxiqueiras que (com sorte) lerão isso repassarão a versão oficial – e, não por acaso, verdadeira. Vamos lá.

Nunca fui louca pela maternidade e não sou do tipo que ama criança. Gosto de umas e de outras não, do mesmo jeito que gosto de uns adultos e de outros não. É difícil entender isso? Não, né?
Casei com 21 anos e não quis filhos no início. Com 28 anos parecia que estava na hora (a biologia, pelo menos) e logo nos primeiros meses já deu pra perceber que não seria fácil engravidar. Isso durou mais ou menos 3 anos e foi bem estressante, lógico. Cansei, me dei um tempo, voltei a tomar pílula, mudei de trabalho e fiz coisas que queria fazer antes de voltar a pensar na enorme responsabilidade que é criar outro ser humano. E este período não foi nada ruim e até decidi que filho não era pra mim.
Sem querer, aos 32, engravidei e descobri apenas quando tinha abortado. Foi um susto mas não houve drama e quase ninguém soube. O acontecido me alertou para o fato de ter algo errado com minha saúde mas, mesmo assim, não fiquei tentando loucamente engravidar, deixei rolar enquanto procurava respostas para as terríveis dores que eu tinha todos os meses.
Só aos 35 descobri que tinha endometriose em estágio avançado e fui pra cirurgia sabendo que tinha que tomar uma decisão para o tratamento pós-cirúrgico, que era engravidar ou não. Pensei muito e só dei a resposta no dia seguinte, que era: “Sim, quero engravidar”.
Desde então, e isso foi há 7 anos, o desejo de ser mãe só cresce. E, infelizmente, no meu caso engravidar não é fácil. Fiz uma inseminação e uma fertilização in vitro e nada. Por fim engravidei naturalmente, mas com 6 semanas a gravidez parou e foi a coisa mais triste da minha vida. Pirei, pirei muito. Mas, como não sou do tipo de gente que senta e chora, reorganizei minha cabeça e parei de sofrer. Hoje sou, junto com meu marido (e amigo, amor, namorado…) uma adotante esperando seu filho chegar. Seria muito bom ter sido uma grávida com todas as coisas que acontecem junto com a gravidez, mas descobri que mais que ser grávida eu quero ser mãe e a maternidade aconteceu no tempo certo dentro de mim e tomou a forma que tinha que ter, de muito amor. Simples assim.

Por mais bem intencionado que seja, as pessoas deveriam nos poupar e parar de indicar receitas infalíveis para engravidar. É até fofo mas isso é coisa que só se faz com alguma intimidade – e, mesmo assim, com o tempo, vai perdendo a graça. É um saco as comadres que deduzem que você está precisando de uma forcinha e tocam a indicar aquele chá milagroso, o médico que fez gêmeos pra uma amiga, cirurgias espirituais, gurus, simpatias…Alguém indicaria um pai de santo para surdos, mudos, cadeirantes? Não, né? E eles vivem muito bem sem as pernas, ouvidos ou olhos.
E, por Deus, não manda a gente relaxar. É como dizer que você não engravida porque não quer. Já basta toda a pressão que a gente passa durante este período. O próximo que falar isso está arriscando ouvir um palavrão. Mesmo.
E as frases do tipo?: “Adota que logo você engravida”, “Legal adotar, mas tenho certeza que você vai ter o “teu”.”
Isso é feio demais! Filho adotivo não é um passaporte, não é um trampolim, não é um objeto que você usa para conseguir o que quer. Filho adotivo é… filho. E é da gente sim.
Então, estamos conversados. Ajudar, pode. Mas a regra é clara: tem que ser com tato, com bom senso, num momento íntimo… E tem limite.
Eu já decidi que quando não estiver a fim de ouvir, vou mudar de assunto rapidinho. Olha o passarinho!

Começo com a pergunta mais delicada: “Não-grávida tem inveja de grávida?”.
E respondo por partes a pergunta mais delicada de todas. Sabe porque? Porque depende.

• Eu desejo ser grávida? Sim.
Eu desejo que só eu, exclusivamente, fique grávida? Não.
Eu tenho raiva de quem fica grávida? Não.
Eu já vi uma grávida e desejei estar grávida igualzinho ela? Ló-gi-co que SIM! kkk
Eu já achei injusto outra mulher engravidar e eu não? Sim, sim, sim!!!
Infelizmente, gente do bem tem sentimentos ruins – e se Deus quiser, passageiros.
Se este desejo durar muito vá para o quarto orar porque você não é tão legal como pensa que é.
Mas gente de bem não almeja exclusivamente para si o que é genuinamente do outro, nem deseja o mal do outro. Ponto final.
Então, se ter inveja é querer igual, eu tive. Se ter inveja é querer ter o que o outro tem e ainda querer que ele não tenha, não tive, não tenho e não terei.
• Só que as vezes, a gente acaba de menstruar, está num bode danado e não consegue pular de alegria com a gravidez alheia na hora que é anunciada. Mas passa…tudo passa, minha gente.
Se for a 3ª gravidez da Angélica, tanto faz. Se for da sua amiga querida você vai participar da alegria dela, lógico. E se for um desafeto você fica bem fula e pensa como Deus escolheu aquela bandida em vez de você (a mulher super legal – como se você fosse perfeita e as regras fossem assim). Mas também passa, principalmente se você tiver muito o que fazer – e agradecer – da vida, como eu.
É claro, que quem não engravida e vê uma mulher ter três filhos seguidos, as vezes até sem querer, as vezes fica cabreira. E a gente pensa, sim, em como deve ser bom engravidar rapidinho, sem suspense. E apenas queria que acontecesse com a gente também. E se pergunta porque acontece com todos, menos com a gente – o que já mostra como a gente pira, porque não é mesmo tão fácil engravidar e tem muitas coisas (boas e ruins) que acontecem com um e com outro não.
Vou contar um causo pra ilustrar. Eu tinha acabado de fazer a tal fertilização in vitro e tinha dado errado. Estava jogada no sofá, morrendo de tristeza, quando, de repente, o telefone toca e…Surpresa! Uma amiga me liga, feliz da vida, para contar que estava grá-vi-da e ela queria me contar de primeira mão. Ahhhhh… Neste dia eu me senti tão pouco querida por Deus e, admito, fiquei de bode com a grávida também, por mais que ela não tivesse a mínima culpa. Pensei que era crueldade demais, eu achava que não merecia aquilo tudo de uma vez. Se eu tivesse mais sorte ela poderia ter engravidado dali um um mês, quando eu estivesse melhor. A indisposição que senti por ela passou, claro. Me senti péssima por ter pensado assim. No fim, comprei um presentinho pro bebê e vivemos felizes e amigas até hoje, espero que ela nem tenha percebido, tadinha. Sobrevivi ao episódio, mas admito que até hoje acho que foi um momento de cinismo da parte de Deus…

• E tem a inveja ao contrário. Tem gente que fica feliz em ver a gente sofrer, acredita?! Gente que diz o famigerado “Coitada, tem de tudo mas não pode ter filhos, de que adianta?”. Isso é, de certa forma, um tipo de inveja. Um regozijo no fracasso alheio.
Pra estes já vou logo dizendo. Tire este sorrisinho do rosto porque… Nãnãninãnão, a vida de quem não engravida não é uma merda. É uma parte da vida bem difícil que as vezes fica pior (ou melhor) e tem até horas que a gente nem pensa nisso. A gente acorda, escova os dentes, toma banho, vai trabalhar, sente alegria, felicidade, fala mal dos outros, fala bem também, pega trânsito (as vezes de bom humor e as vezes de mal), se diverte, viaja, chora e ri… É igualzinho aos outros problemas da vida.
E, antes que eu me esqueça, faça-me o favor e vá lavar um tanque de roupa, tá?

Este capítulo é ba-fo! E complementa o anterior. Dava pra escrever um livro mas vou escolher alguns exemplos para ilustrar a danação que é lidar com seres humanos, ainda mais mulheres cheias de hormônios.

• Na época que abortei algumas mulheres ao meu redor estavam grávidas e, em meses, as crianças foram nascendo, lógico. Como lidei com isso? Foi, mais ou menos, de acordo o comportamento de cada uma delas. Com as mulheres que foram solidárias comigo também fui com elas visitando seus bebês chorões e rindo do martírio das noites sem dormir e dos peitos rachados mesmo que as vezes fosse difícil não pensar que eram meus peitos que estariam rachados naquela hora.
As que me evitaram eu evitei. As que foram más (sim, elas existem) eu afastei da minha vida com jeitinho. E as que não sabiam bem o que fazer comigo eu também fiquei sem saber o que fazer com elas.

• Eu tinha uma amiga que ficou grávida logo depois que eu tive o aborto. Fiquei sabendo que a bandida andou falando aos ventos que eu me afastei dela depois que ela teve sua bebezinha. Bom, eu me afastei dela sim mas não pelo motivo que ela imagina. O meu distanciamento tem mais a ver com a distância dela, dos abraços que eu dava em torno de seu corpo grávido e ela se encolhia, dos almoços e cafés que apenas eu convidava, das mensagens de Natal e Ano Novo ignoradas e também porque ela nem se deu ao trabalho de avisar quando sua bebê nasceu. Meu Deus, o que eu poderia ter feito de ruim? Colocado olho gordo? Matado as duas? Jura? Percebi ali a fragilidade daquele relacionamento. Foi difícil abrir mão da amizade mas ela não devia ser tão amiga assim. Já sarei, êêêêêêêhhhh ;D

• Outra boa. Eu tenho uns 40 primos, mais ou menos. Todos tiveram filhos. Eu fui a sorteada entre tantos para muitas coisas boas e também para a infertilidade. Assim é a vida.
E, me diz, qual a família que não adora uma falação? Pior que estas coisas sempre chegam no ouvido do alvo da fofoca porque este mundo é muito pequeno mesmo. Eu não sou de dar muita bola e seria este meu melhor conselho pra quem passa por isso. Mas alguns casos, de tão bizarros, ainda me surpreendem. Eis um caso dos bons!
Eu e uma prima engravidamos quase juntas e, infelizmente, as duas abortamos na mesma época também. Rolou uma solidariedade, lógico. Em pouco tempo ela engravidou novamente. No início ela me mandava ultrassons e estas coisas que mães orgulhosas fazem. Eu estava ainda muito abalada com a perda do meu bebê mas segurei a onda recebendo e respondendo estes e-mails, crendo que era apenas falta de noção e supostamente (hoje duvido muito) uma tentativa de  me alegrar, incentivar e ter esperança.
Os meses passaram. Neste mesmo período meu marido sofreu um infarto (aos 49 anos!) e quase morreu, mergulhei na recuperação pós-cirúrgica dele e minha prima deu uma sumida, cada uma com suas prioridades para cuidar. Como não éramos super chegadas e a única coisa que tínhamos em comum foi esta gravidez, interrompida em dupla, acabamos nos distanciando novamente. Nossos encontros voltariam ao patamar anterior, aos raros eventos da nossa família e encontros casuais na casa dos meus tios na frequência de uma vez a cada dois ou 3 anos, como sempre foi.
E nasceu a menina da minha prima. Atrapalhadamente não fui ao hospital, o que nesta parte da minha família é super normal, somos meio distantes mesmo. Eu até me esforço para mudar isso mas é assim. Pra meu azar também acabei faltando ao aniversário de um ano da menininha e meus irmãos também não foram. Mas sobrou pra mim.
Parece que a conclusão dela foi que eu não estive presente por não ficar confortável em face à sua felicidade maternal e completou dizendo que compreendia, afinal, perdemos o bebê juntas e tal. Sim, pior é que ela ainda fez a compreensiva.
Comentário infeliz, egocêntrico e maldoso. Quem diz uma coisa dessas, no mínimo se baseia em sua própria maneira de agir. Quem diz isso é mau. Quem diz isso quer fingir que é bom.
Já pensou se eu fosse evitar todas as mulheres que estiveram grávidas quando eu queria estar ou quando minha gravidez foi interrompida e elas tiveram seus bebês? Eu perdi as contas de quantas visitas de nascimento e festas de aniversário eu fui no último ano ou dois (meu filho teria 2 anos agora…). Sinceramente, não me lembro mais porque não fui ao aniversário da filha desta prima, da mesma maneira que não lembro o motivo pelo qual dei alguns inevitáveis furos em alguns nascimentos e aniversários. As vezes não dá, simples assim. É muita coisa pra fazer e não dá pra agradar a todos. Com o tempo escasso a gente dá prioridade as pessoas mais próximas, presentes e que fazem diferença na nossa vida. Certamente ela não devia estar no topo desta lista, não é?
Os seres humanos ainda conseguem me surpreender, ainda mais quando é gente do próprio sangue. Me senti uma palhaça por ter sentido culpa de não ter tido tempo de ir ao hospital entregar o vestido fofo – que comprei com semanas de antecedência ao nascimento da menina, e que acabei dando para outro bebê depois de imaginar que não serviria mais.
Essa daí, com certeza, continuará restrita aos esporádicos eventos familiares, quando muito. Se existia algum desejo de ampliar a intimidade e a presença dela em minha vida, morreu aí.
Tudo que me falta em fertilidade tenho de sobra em culhão. E tenho dito.

Tem um tipo de amor que eu não dispenso. É o amor feminino, de amigas, de irmãs, de primas, de tias… Este amor nunca é demais, uso sem moderação.

• Eu tenho uma comadre. Estivemos grávidas juntas quando eu tive o primeiro aborto. Foi uma pena mesmo, teria sido bom criar nosso filhos juntos. Ela faz parte da minha vida e este seu filhinho é uma das minhas crianças preferidas. Esta amiga é daquelas que reza por mim quando passo por aflições, ela me ofereceu suas economias para fazer (mais) tratamentos para engravidar, se eu precisasse. E ela meu deu seu segundo filho como afilhado mesmo sabendo que eu não posso batizá-lo por não ser católica. E quando fiquei grávida pela segunda vez, disse que tinha guardado (por anos e em segredo) todas as melhores roupinhas dos seus filhinhos para mim e torcia pra eu não ser fresca, e que fosse um menino. Óim.

• Eu tenho primas, muitas.
Tem uma que é uma pessoa de oração dedicada. Eu sei que estou em suas orações. Ela ora pelo meu bebê, natural ou adotado. Ela sempre esteve presente na minha vida e eu na dela. E espero que seja assim pra sempre.
Tenho outras duas primas que são irmãs. Crescemos juntas. A gente tomava Leite Moça na lata, uma delas cortou minha trança pela metade quando eu era criança, outra me acompanhava nas noites insones de alergia. Fizemos tantas artes juntas…
Há alguns anos uma delas me ofereceu sua barriga emprestada! Era pra eu aproveitar antes antes dela ficar velha demais. Afinal, a gravidez dela é ótima, nem enjôos tem. Ela faria isso com o maior prazer. Não é de chorar de tão bonito? Tem gente que é assim, generosa. A segunda irmã teve um bebê depois de ter dois filhos grandes. Foi um acidente daqueles! Falamos tanto ao telefone, ela estava desesperada por já ter um menino que necessita de cuidados especialíssimos. E nasceu o bebê mais fofo do mundo. Sempre falo pra ela que vou roubá-lo porque ela já tem três. Ela ri, não vê maldade. E eu falo sem maldade.

• Eu tenho três irmãs. Uma tem um filho e não quer sonhar com outro, outra também tem um e engravidou a duras penas. E tem a parideira, mãe de 3 filhos. Ela sempre foi doida pra me dar a tal barriga emprestada, igualzinho a minha prima generosa. Como ela me encheu por conta disso…

No caso da barriga de aluguel, admito que quase aceitei a ajuda delas mas penso que não poderia colocar ninguém numa situação dessas, acho que seria muito sofrimento para quem parisse, por mais que elas digam que estão preparadas. Amo estas mulheres e as admiro por isso, eu não teria esta coragem que elas tiveram.

Na nossa vida rolam muitas histórias, boas e ruins. E, para o bem o para o mal, este mundo é feito de gente, de amor, maldade, hormônios femininos, tristeza e felicidade.
Não conceber pode ser uma coisa angustiante. Por isso, podemos chorar quando for necessário mas acima de tudo vai ter uma hora que o único remédio será a nossa própria força. E se não podemos garantir o DNA perpetuado no sangue dos nossos filhos ainda podemos ter outras missões e alegrias. Escolha as suas para não desperdiçar a vida.
E escolhi ter filhos do coração que, com sorte, irão prosseguir com minha melhor herança: a fé, o amor, os ensinamentos, as receitas de família e algumas manias (as boas, espero).
A gente não pode garantir nada disso com filhos biológicos nem com os adotivos.
Mas é o que peço. Amém.

14/01/2012

86 :: Voar de balão…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…em Boituva

“Voar, voar, subir, subir, ir por onde for…”

Depois de tanto tempo sem escrever começo este post lembrando do Byafra. Foi quase impossível pensar em voar e não lembrar deste clássico brega “…repetir amor já satisfaz, dentro do bombom há um licor a mais…faça um sinal, cante uma canção sentimental em qualquer vooOOzzzz…”

Daí o que era para ser algo meio poético – sobre querer ser um passarinho para poder voar, sobre sonhos, sobre estas coisas todas que a gente diz quando pensa o quão bom seria poder se deslocar livremente pelo ar, rapidinho, sem trânsito, sentindo o vento no rosto – virou uma introdução brega para dizer que eu já voei de balão. E foi bom, foi diferente do que eu imaginava, foi melhor do que eu imaginava.

O ritual foi mais ou menos este. Primeiro a gente passou um frio mortal (dias de inverno são legais para voar), depois começaram a chegar pickups carregando cestinhas parecidas com aquelas de pão (elas não deveriam ser maiores, mais fortes?). Dos carros pularam pessoas sonolentas que logo começam a  montar vários montinhos de balões murchos em um descampado. E enfim, depois de horas vendo isso acontecer lentamente, baixou uma neblina de uma só vez e o dono do balão diz que se não sair em meia hora não sai mais. Meu dedinho (congelado) do pé quase derrubou lágrimas nesta hora.

Tudo bem, tem que saber brincar, tem que saber entender a natureza e blá-blá-blá.
Porém, as palavras mágicas vieram: “É agora, vamos voar.”

Subimos na cesta (que ficou menor ainda diante do enorme balão inflado) e fomos escorregando na horizontal pelo terreno de capim baixo. Uns caras foram guiando o balão na direção certa até ganharmos autonomia, nos disseram um “boa viagem” e…e….e…voamos.

É leve, quente e quase silencioso voar de balão. O chiado das bombadas de ar quente apenas embalam o fundo musical composto pelo vento, pássaros, muitos suspiros e exclamações dos voadores de primeira viagem. Não tem tranco, ele desliza lá pra cima rápido, as pessoas vão ficando pequenas e em minutos estamos dentro de uma camada de neblina. Mais uns minutos começamos a sair de dentro dela e os outros balões também, criando um clima surreal de gotinhas coloridas saindo do meio do algodão que forrava um céu absurdamente azul. Mágico.

A altitude varia bastante, fomos de muitos metros – não sei quantos mas o suficiente para ver as pessoas bem pequenininhas – até bem baixinho chegando a raspar o fundo da cesta em um milharal, até ouvir crianças gritando “mãe olha o balão”, até distinguir rosto das pessoas acenando para nós. Sabia que existe uma atração muito grande entre balões voando e braços acenando? Pois é, existe.

Eu não sabia que Boituva tinha uma área rural tão bonita. Sem exageros, parece a Toscana. Tem até rolos de feno!

Vimos vacas, cachorros estressados, pássaros passando pertinho, plantações, nascentes de rios, fazendas…

E chegou a hora de pousar. Veio tudo de novo, a gente voando baixo, o balão deslizando, os homens guiando para o melhor lugar…suave e simples assim. Uma hora de voo.
E assim acabou a hora mais rápida da minha vida.

Tem  muitas companhias que levam para este voo em Boituva. Eu fui pela Aeromagic que faz parte da Viva! Experiências. Um presente e tanto!
Espero, em breve, escrever sobre passeio de balão na Capadócia, Toscana, Vale do Loire, Austrália…

09/07/2011

85 :: VER UM PÔR-DO-SOL PARISIENSE…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…DO ALTO DA BASÍLICA DE SACRE COEUR, EM MONTMARTRE

Dizem que pôr-do-sol é tudo igual. Me diz se é, por favor?

Chegar em Paris no meio de uma segunda-feira, deixar as coisas no hotel (fofo), comer na primeira rotisserie (muito simpática) que encontrou no caminho e tomar a decisão certa do primeiro lugar a visitar, não tem preço.

Nossas escolhas: o bairro de Montmartre e a torre da Igreja de Sacre Coeur.
Nossa sorte: dia seco e frio, céu azul, termos um ao outro para valorizar este momento tão perfeito.
Trilha sonora: show de música dos anos 90 na escadaria da igreja, nada a ver, mas divertido demais.
Paleta de cores: a igreja mudando de cor, do branco para o amarelo. O céu de azul anil para todos os tons de rosa e laranja.


06/07/2011

84 :: UMA HISTORINHA SOBRE UMA CAIXINHA DE MÚSICA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…COMPRADA EM PARIS

La vie en rose. Láááááá, lá-lá-lá-lá-lá-lá, lá-lá-lá-lá-lá-lááá, lá-lá-lá-lá-lá-lááááá…
Óbvio demais mas esta foi minha trilha sonora mental na única vez em que estive em Paris.
Eu estava feliz por estar lá, Paris sempre esteve nos meus sonhos infantis e eu estava curtindo cada minuto como se fosse a última (ou primeira) mordida de um chocolate maravilhoso.

Eu cantarolei esta música subindo a Torre Eiffell, na Ponte Neuf, em Montmartre, no Trocadero…

{1.Lálálá no ouvido do bofe, 2. Lálálá em pensamento 3. Lálálá no trocadero}

E um belo dia, numa rua estreita bem ao lado da Catedral Notre-Dame, vimos a coisa mais romântica do mundo! Uma lojinha cheia de mini caixinhas de música. Caixinhas sem frescuras, simples mecanismos de tocar música. Peguei uma (adivinha qual?), comecei a tocar, meus olhos se encheram de lágrimas e já imaginei que momento romântico, meu marido comprando uma e me dando ali mesmo de presente…esperei mais uns 3 minutos, nada. Ah, melhor ainda, ele vai me dar uma a noite, no jantar, ou no quarto…que româââââââânticoooooo! De qualquer maneira não vou comprar, não quero desmanchar a surpresa. Mas deixei ele livre para poder comprar escondido de mim, lógico.

Saí do meu devaneio com meu marido em seu melhor ataque Homer Simpson: “Vamu embora mulé, tô cum fomi!”.

Fomos embora, a tarde passou, momentos perfeitos passaram, o jantar passou e…e puft! Nada de caixinha de música. O bobo perdeu a chance de nos (me) proporcionar o momento mais romântico parisiense que 90 entre 100 mulheres gostariam de ter.

A viagem prosseguiu, esqueci o assunto. Ok, quase esqueci. Admito que tive umas recaídas em alguns momentos de crise conjugal em que os homens são insistentemente lembrados de como eles são insensíveis e sem coração.

Tudo isso faz tempo.

O que não faz tanto tempo foi que uma noite, no carro, depois de me pegar no trabalho, ele me estende um pacote. Abro. Não deu para conter o choro quase infantil ao ver na minha frente um micro mecanismo musical, tão pequeno, enrolado no papel amassado de uma certa loja ao lado da Notre-Dame…

Foi tão especial como se tivesse sido na hora que eu estava esperando. Não, foi mais especial. Fo surpresa mesmo. Uma linda surpresa de quem se importa…

ps1. um amigo do meu marido foi passar a lua-de-mel em Paris. Meu marido indicou a loja, disse que não era para deixar de comprar uma para sua mulher e que foi um erro não ter feito isso. E de quebra disse: “Se você for mesmo, traga uma para mim, por favor?”. Enfim, uma maneira muito elegante de se fazer uma encomenda, de viagem, tão específica.
Uma exceção! Quero lembrar aqui que pedir encomendas de viagens é algo quase proibido, com exceção das encomendas de free shop, lógico. E não tem nada demais dizer que não achou, que não deu tempo, que não estava a fim.

ps2. acho que o lugar é este Paris Forever.
Vai este ângulo, indo para a Notre-Dame.
Tem este ângulo, melhorzinho, de quem vem da Notre-Dame.
Juro que não lembrava que era esta espelunca! Mas pode ser o L’Abiside ou o Esmeralda, igualmente espeluncas e que devem vender o mesmo tipo de tranqueiras.

ps3. compramos cachorro quente no Brasserie Esmeralda, muito “mais ou menos”. Comemos atrás da igreja, foi divertido.

04/07/2011

83 :: CATEDRAL DE SAINTE…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

 …CHAPELLE, EM PARIS

Os raios de luz entraram pela minha retina sem pedir licença, sem perguntar se eu estava preparada para tanta, tanta beleza. Cara, que lugar esta Sainte Chapelle, que luz linda entrando pelos vitrais. Que má-gi-co.

Me dei conta que meu marido ficou me esperando lá fora – é que combinamos que a partir de um certo estágio da viagem (qualquer viagem) eu não tenho mais o poder de dissuadí-lo em suas trocas: igreja por café com revista na esquina ou museu por café e jornal em outra esquina, ou praça. As vezes são mesmo trocas bem justas e necessárias, concordo. Mas esta não era uma igreja qualquer.

Dei ré e voltei pela mesma escada caracol para encontrá-lo e convencê-lo a entrar comigo. Eu gosto de dividir estas experiências, sabe? Ele ficou surpreso em me ver, principalmente porque que eu estava dando uns pulinhos bestas e falava em alta rotação, muito acima do que um ser humano normal poderia ter obrigação de entender…patético. Porém valeu a pena voltar. O que seria dele se não tivesse uma mulher tão incrível, tão interessada em lhe apresentar coisas lindas nesta vida…

A capela gótica de Sainte Chepelle é linda, linda, linda. Fica meio escondida, junto com a Palácio da Justiça na Île de la Cité.

As paredes são quase todas cobertas pelos divinos vitrais. No fim, fica parecendo um vitral só. As rosáceas são tão elaboradas…tão, tão… Bonitas? Lindas?

Estou aliviada por ter ido antes de morrer. Agora, preciso viver mais para voltar lá, desta vez assistindo a um concerto.

ps. O “porão” da capela é lindo também, mas não tenho fotos de lá.

 
Sainte Chappelle
Aberto todos os dias

1 março a 31 outubro: 9:30 as 18
1 novembro a 28 fevereiro: 9 as 17
Aberto à noite às quartas-feiras
15 maio a 15 setembro
Última entrada às 21:00.
Fechado
Entre 13 e 14 horas durante a semana
1 de janeiro, 1 de maio e 25 de Dezembro
02/07/2011

82 :: UMA MANHÃ DE FESTA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…EM MONTALCINO

Ontem à noite, tomando o último dos vários goles do meu Valdorella di Chianti – comprado em supermercado mas com super bom olho do meu marido – fui levada à uma viagem no tempo.

Eu estava em uma das pernas do roteiro de vinhos toscanos, a caminho de Montalcino, a região onde é fabricado o Brunello de Montalcino.

Pausa aqui. Eu realmente não entendo quase nada de vinhos, mas dando um google percebo uma certa competição entre estes dois vinhos que menciono aqui, mas eu realmente não ligo de colocar os dois nomes na mesma frase. Para mim eles estão, juntos, nas minhas lembranças agradáveis de um dia de outono.

Domingão. Estava frio quando saímos da nossa honesta semi espelunca super bem localizada, o Piccolo hotel il Palio em Siena. Pegamos nosso carro, na praça em frente de onde ele deveria ser retirado sempre até as 7 da manhã para não tomarmos multa, e pegamos a estrada eufóricos.
O início do caminho foi cinza, com neblina. Aos poucos ela foi diluindo, virando fiapos brancos e a trilha sonora evoluiu para músicas italianas de gosto duvidoso. Ciprestes apareceram no caminho, vinhedos também, envoltos em brumas tão românticas… Nem parei para fotografar, para que estragar um momento tão mágico se arriscando a um atropelamento nas estradinhas sem acostamento?

Enfim chegamos à Montalcino e já dava para ver a cidade histórica, murada.

Muita gente na rua, dia da Sagra del Tordo, uma festa medieval que iniciava a temporada de caça.
São quatro bairros disputando o prêmio, a “Flecha de Prata”. Azul e amarelo, Riga. Branco e vermelho, Borghetto. Branco e azul, Pianello. Amarelo e vermelho, Travaglio.

Famílias inteiras assistem as apresentações de danças típicas.

Ou alguma competição cujo touro enorme é o centro das atrações.

Crianças comem seus paninis, velhinhos ficam sentados em frente suas casas ajardinadas e velhinhas comentam como a cidade está mais ou menos bonita que nos anos anteriores. O traje medieval é o figurino para os que participarão das encenações.

Tudo acontecendo debaixo de um céu azul, do ar frio que perde força conforme o sol sobe e dos mirantes que mostram emocinantes paisagens toscanas.

Dia de sorte, pura sorte.

23/05/2011

81 :: ESTAR, AO MENOS UM DIA, EM CÓRDOBA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NA ESPANHA ANDALUZ

{sentido horário: pôr-do-sol na Ponte Romana, chão de pedras e escultura na estrada da Catedral}

Eu não tinha expectativas em relação a Córdoba. Pequena, boa para descansar um pouco… Nada demais.
Lá não aconteceu nenhuma refeição inesquecível, não tomei meu hamman por estar gripada, o hotel na juderia, Los Omeyas, era  honesto para os 70 euros a diária. Não houve nenhum causo a se contar…nada demais. E, mesmo assim, foi mágico.

{um canto típico, perto da cidade murada}

Andamos pelo bairro judeu, entramos em lojinhas, vimos Os Contos de Alhambra, de Washington Irving, em tudo que é idioma. Vimos também vários pátios bem fake, pra turista. Tomamos chá em uma teteria que se saiu uma experiência bem meia boca, pensamos que iríamos ser assaltados mas era um cara nos ajudado a achar um endereço na pura boa vontade. Jantamos em um lugar, o Los Patios, que esqueci a comida tão logo saí (sinal que não foi bom nem ruim) mas que tinha plantas em vasinhos de barro espalhados pelas paredes.
Enfim, uma visita sem pretensões (ah, comprei uma pulseira linda, de prata, que uso muito).

{sentido horário: lembranças, Los Pátios, Salão de Té e Los Pátios e sua geladeira "old-fashioned"}

A visita a Catedral de Córdoba (ou a Mezquita, com z) foi tranquila e sem correrias e lá dentro estava tão fresco, calmo e…tãããooo silencioso. O lugar é realmente incrível. Os embates entre cristãos católicos e muçulmanos aparecem aqui e ali, nas misturas de estilos e no opulento altar católico plantado no meio da mesquita. Os arcos mouriscos em forma de ferradura proporcionam uma sensação de profundidade infinita. Demais.
Vale a pena ler sobre o assunto em um guia, desta maneira sempre se aproveita mais uma visita histórica e neste caso é indispensável.

{o Pátio de los Naranjos ao fundo...}

Na entrada não passe batido pelos Patio de los Naranjos, em outubro está carregado de frutas e em abril (me contaram) florido.

{sentido horário: espeho d'água no Pátio de los Naranjos, entrada da Catedral e o pátio}
{quilos de lutas pelo poder em tintas e adornos}

No final da tarde, depois do banho, andamos mais a pé do nosso hotel até a Ponte Romana, onde vimos um pôr-do-sol enfeitado por revoadas. Com a temperatura caindo levemente sentimos o cair da noite ao mesmo tempo em que as flores de jasmim soltavam seu aroma doce pelas ruas da cidade.

{uma porta que leva à cidade histórica}

Foi inevitável cair no clichê de pensar se este era o mesmo aroma de séculos atrás, quando judeus e muçulmanos pisaram aquelas ruinhas calçadas de pedra de rio.

{onde senti o cheiro forte dos jasmins...}

No dia seguinte, meu marido acordou dizendo ter sonhado que estava andando entre as colunas da catedral, sozinho. De som apenas os seus passos, com um sapato de sola dura, ecoando no vazio. Toc, toc, toc…

{e enfim, o lugar do eco dos sapatos}

22/05/2011

80 :: VENCER UMA FOBIA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NEM QUE SEJA AOS 40 ANOS – NUNCA É TARDE

Medo de aranha, barata, rato. Medos inexplicáveis.

Como uma pessoa pode ter medo de uma coisa pequena, menor (muito menor) que um ser humano? Ou de algo que não representa um risco real? Isso se chama FOBIA. Em algum momento da sua infância, ou quem sabe no útero ainda, este medo foi desencadeado e pronto, tá feito.

Eu sempre fui uma cagona. Tinha tanto medo daqueles reguinhos de água que meu pai sempre me pegava no colo para dar um pulinho. Tinha medo de altura, subia nas árvores e não dava conta de descer.
E sempre morri de medo de aranha, o que está sendo vencido aos poucos; afinal, acabei vindo morar no lugar de maior concentração de aracnídeos do Brasil, a Serra do Japi. Aqui também é o lugar de maior incidência de queda de raios do MUNDO. Acabei descobrindo isso sem querer. (Pense: o Brasil é o país com maior atividade elétrica do mundo e a Serra do Japi a maior do Brasil. É só raciocinar… Ainda bem que não tenho tanto medo de raios assim).

Mas o que quero falar aqui é de um medo estúpido: medo de voar. Tem coisa mais caipira? Não, né? Pois eu sofri por conta disso por anos e dedico meu octogésimo (8% da minha lista) à vitória de não mais sofrer deste mal.

{montras}

Minhas histórias de avião são óóóótimas. Mesmo no auge da fobia eu ria de mim mesma depois que descia do avião.
Eu entrava na sala de embarque olhando para a cara das pessoas e pensando como elas ficariam depois de mortas, ou que tipo de reação elas teriam antes da queda, se a gente iria desmaiar antes de cair ou se ia ser, assim, a seco mesmo.
Como não andei de avião na infância fui adiando este momento até onde deu. Fiz uma viagem rodoviária Aracaju-São Paulo sozinha, as 17 anos. Já tinha ido de ônibus, com umas amigas, e o combinado era voltar de avião, sozinha. Pois eu voltei de ônibus, não avisei minha mãe que estava voltando e cheguei em casa de surpresa. Não precisa dizer que esta viagem fui uó! Chuva o tempo todo, tigrões caindo matando na menininha sozinha. Um perigo.

{noites...}

Meu primeiro voo foi com meu marido, duas amigas e minha irmã pequena para a Flórida – e foi péssimo. Voo horroroso, um dos piores da minha vida. Tempestades, raios, muitas turbulências e um ciclone passando sobre o Caribe não nos ajudou muito. Até os bagageiros abriram com as chacoalhadas. Muito medo.
Na volta, no voo curto entre Orlando e Miami houve um incidente. Eu estava comendo meu Oreo e um yogurte de morango quando soou uma sirene forte e o filme saiu do ar. Estressei na hora. Meus queridos companheiros de viagem riram. Eu agarrei na minha Bíblia. Olha a cena…
Dali a pouco, com a maior calma do mundo, os comissários pediram para colocarmos as poltronas em posição vertical. Minha melhor amiga me olha e diz que foi bom me conhecer e caiu em uma risada histérica. Minha irmãzinha de 10 anos, super calma, já tinha dito que tinha um mau pressentimento daquele voo. E pensei que tristeza meus pais perderem duas filhas ao mesmo tempo, a primogênita e a caçula… Dali pra frente não lembro de mais nada. Saí do ar. Me contaram que uma das turbinas pifou, o avião deu uma baixada brusca, um som abafado parecido com uma explosão… Mas pousou bonitinho.
Tomei 2 Dramins para encarar o outro voo, igualmente horroroso com chuva, mas os comprimidos só me fizeram delirar e ver coisas que nem estavam acontecendo. Cheguei em São Paulo doente.

{tem coisas que só uma janela de avião pode te dar...}

Ouvir a turbina do avião sempre foi o meu horror. Era sentar na poltrona e começar a chorar baixinho e dizer a clássica frase: “O que eu estou fazendo aquiii?” E não adianta dizer que o avião é o meio de transporte mais seguro e blá, blá, blá. Eu concordava, mas o medo era maior. Cheguei a extremo de achar que se eu andasse durante o voo, o avião poderia se desestabilizar e virar de lado!!! Absurdo, estou rindo sozinha escrevendo tudo isso.

{waw!}

Um dia, uma amiga me disse que eu estava sofrendo à toa e que era pra pedir um remedinho pro meu médico.
O primeiro me indicou 3 gotas de Rivotril, foi ótimo mas só resolveu na primeira viagem. Depois fui aumentando as gotinhas para 7, 9 e parei no 15 com medo de entrar em coma dentro do avião. Uma vez, em um avião novinho da Royal Air Maroc, quase infartei achando que as tvs baixando eram as máscaras de oxigênio – neste caso eu mereço um desconto, se eles cuidam da manutenção do avião do mesmo jeito que cuidam do país…sei não.
O segundo médico passou Lexotan. Tomava 2 e não apagava.
Enfim o terceiro me indicou Frontal. Sensacional. Tenho que admitir que ele dava uma leve amnésia mas eu não ficava grogue, só dormia, se fosse voo noturno. Pulava do avião novinha e feliz da vida. Mas ainda tinha um inconveniente, ficava sem condições de cuidar 100% bem dos meus pertences. Meu marido se encarregava disso.

Nunca tinha voado sozinha e isso era uma limitação, sem dúvida. Voar, só com companhia? Puxa…odeio dependência.

{usei esta foto para dizer que um novo tempo nasceu para mim...entendeu?}

Psicoterapia – e alguns miligramas de remedinhos diários, admito. Esta foi uma das soluções. Não fui lá para isso mas acabei descobrindo que o medo de avião não era medo de avião mas sim uma necessidade de controlar tudo. E depois que meu marido infartou e foi diagnosticado errado por 2 anos seguidos e no fim foi ter uma parada cardíaca bem na frente de uma das melhores equipes cardiológicas do Brasil saquei que não é a gente que controla, nadinha. As coisas acontecem e ponto.

Meu primeiro voo quase sadio foi Caracas-Los Roques, num bimotor de 8 lugares, vai entender…

{azul escuro, Caracas; azul claro Los Roques}

{dando os primeiros passos para a vida adulta}

O primeiro sadio mesmo foi para o Rio, em outubro de 2010. Percebi que estava dando…
E aconteceu algo impensável! Fui para Curitiba, sozinha. Tinha que ir, não tinha jeito. Mas fui segurando, bem forte, um comprimido de Frontal. Mas meu marido me ajudou no check-in porque eu estava meio dispersa, ansiosa demais. Na volta já foi melhor, peguei o táxi, entrei no aeroporto, fiz check-in, comprei umas coisinhas em uma loja muito simpática, liguei para meu marido da sala de embarque e voei com meu comprimido na sacolinha das compras. Na volta, meu marido ficou me vendo retirar minha bagagem da esteira e quando saí no desembarque me abraçou e me deu boas vindas ao mundo adulto ;D

Semana passada dei meu passo decisivo. Tive que voar sozinha, de novo. Deixei o ansiolítico em casa, entrei na sala de embarque como gente grande e fui lendo um livro da Danuza Leão (oi?) e dando umas cochiladas. A volta foi de dia, melhor ainda porque não gosto de voar a noite. Fiz meu check-in eletrônico e me senti tão, tão, tão…adulta! A pessoa mais civilizada, moderna e independente do mundo inteiro.

Quem nunca passou por isso nunca vai entender mas quem já passou sabe muito bem do que estou falando.
Que venham muitos voos, muitas viagens lindas e que sejam, em sua maioria, acompanhadas do meu melhor companheiro de viagens, meu marido, que por tantos anos me cedeu seu braço, em cima do apoio da poltrona do avião, para eu fincar as unhas.
Se cair, caiu.

27/04/2011

79 :: SE DEIXAR SER FOTOGRAFADA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…DIRIGIDA, DE POSE MESMO.

Acho que não precisa lá de muitas palavras…momento único, feliz, em uma noite chuvosa de outono em Florença.
Estava um frio daqueles e eu tinha perdido minhas luvas de couro falso compradas num barraquinha em Roma (ainda não sabia que tinha perdido, mas tinha), tinha andado o dia todo debaixo da garôa fina e meus pés só não estavam molhados porque estava usando uma bota impermeável, forrada de pêlo de não sei o que, que me deu uma baita dor na canela depois – não era tão confortável a danada, mas na hora parecia que era.
Nesta noite compramos um bicho de pelúcia do Ratatouille para a Thathá, minha sobrinha mais velha das sobrinhas meninas. Ela adorou, ele ainda existe todo encardido e da última vez que o vi morava na casa da gata, que já morreu. Nesta mesma noite entrei em uma loja da M.A.C. e fui mal entendida por uma biba mal humorada e acabei não comprando o lápis que deixaria meus olhos parecidos com os das italianas que tinha visto no metrô. Não lembro se já tinha ido ver a ponte cheinha de coisas de ouro que nem se eu estivesse podre de rica compraria, de tão brega. Não sei também se a gente tinha jantado ou se jantou, esqueci. Mas sei que neste dia a gente se perdeu legal, pegando um certo (errado, na verdade) ônibus que um velhinho meio cego e meio manco nos indicou e que nos fez parar no fim do mundo.
Num destes vais-e-vens vi uns ratos (ratões, não ratinhos) atravessando uma praça, e pior, eu tinha que atravessá-la para pegar o ônibus certo.
Foi, sem dúvida, uma linda noite chuvosa de outono…de verdade. Mesmo que as palavras as vezes digam algo contraditório, como “ratos” e “linda” na mesma frase. Esta foto eternizou o momento mágico, enfeitado com gotinhas douradas no meu guarda-chuva que combinavam com os brilhos da gola rolê da minha blusa recém comprada na José Paulino e com o brilho sintético do meu trench coat (sempre achei que usaria esta palavra chique: trench coat!) comprado não sei onde. É isso que vale :*}
ps. repara, o cenário também é dourado, com a Ponte Vecchio ao fundo.
ps2. eu fiquei bem na foto. Logo eu que mostro a língua, faço caretas e entorto o olho na hora do click!

26/04/2011

78 :: VER A TORRE DE PISA…

por 1000 coisas para fazer antes de morrer

…NEM QUE FOR POR MEIA HORA

Que atire a primeira pedra quem nunca pensou em ver um cartão postal meio brega.
O que seria um cartão postal brega? Não sei explicar direito mas só sei que considero a Torre de Pisa bre-guí-ssi-ma.
Até eles concordam com isso e fazem uns souvenires ridículos demais, bem piores que bolsas em formato de Torre Eiffel, bem piores que imã de geladeira comprado no Caminito, bem piores que caneca com a carinha do Papa, tadinho.

Eu adorei ir à Pisa, foi rapidinho, legal e mais que suficiente para ver e sair correndo.

Lembrei dela hoje, vendo uma notícia na Folha: Restauro na torre inclinada de Pisa termina após 20 anos e juro que me deu saudades deste dia bregão.

Veja só. A gente estava indo de…de onde mesmo? Acho que de Siena para a Ligúria e desviamos nosso roteiro em uns 100 quilômetros só pra ver a tal da torre, tão famosa. Afinal, vai saber quando teríamos a mesma oportunidade, não?
Viemos por uma avenida que bem poderia ser em Florença, com rio, ponte e tudo. E eu me pescoçando toda, imaginando em que hora ela iria aparecer na minha frente…cadê, cadê?

Daí, assim, como quem não quer nada, tcham!!! Lá, depois de um portão, de um muro, de um mar de barraquinhas de tranqueiras e de um monte de gente eu vi aquela forma tão familiar, tão vista em logomarcas vagabundas (e outras nem tanto) de pizzarias – as marcas, não as pizzarias, não todas.

Ahá, não é que ela existe mesmo?! Nesta hora quase fui atropelada por um ciclista – cuidado, os ciclistas de Pisa são loucos. Ou isso ou eu estava acostumada com a vida (curtinha, de turista, uma vidinha mini de borboleta) nas cidadezinhas toscanas e estava meio fora do esquema cidade-mutcho-loca.
Enfim, depois de quase ser atropelada por mais uns dois ou três caras guiando suas bicicletas desvairadas e sem buzina eu fiz aquilo que ninguém deveria fazer mas faz. Eu tirei fotos empurrando, segurando, espalmando a torre. Meninos eu fiz! Fiz, eu fiz, fiz e gostei.

Se faria de novo? Talvez, se estivesse indo para a Ligúria, num dia de sol, com um tempinho para desviar 100 quilômetros do meu caminho…faria sim, e subiria para ver se ela aguenta meu peso.

E ficaria meia hora (de novo), pegaria a mesma estrada de volta, talvez para a Ligúria, para Cinque Terre de novo.

 

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